A banca nunca perde. E a conta, sempre alguém vai pagar!

O Ministério da Saúde reconhece o transtorno do jogo como problema de saúde mental

Rodrigo Santana
Por Rodrigo Santana  - Psicólogo 7 Min Leitura
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A facilidade de apostar pelo celular pode esconder um ciclo de perdas financeiras, familiares e emocionaisImagem: IA
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Há uma frase que deveria aparecer antes de cada aposta, em letras maiores do que qualquer promessa de prêmio: aposta não é investimento.Mas o que vemos é o contrário. As plataformas vendem adrenalina como entretenimento, prejuízo como “fase ruim” e recuperação das perdas como se fosse uma questão de estratégia. Ai temos vários Influenciadores, que exibem supostos ganhos, anúncios prometem dinheiro fácil. Pronto, o celular transforma o jogo em uma atividade disponível a qualquer hora, inclusive naqueles momentos de ansiedade, solidão ou desespero financeiro. Ai meu amigo, a aposta pode deixar de ser o lazer momentâneo e passar a ocupar o centro da vida. E isso definitivamente não é divertimento.

O celular virou cassino

Se você parar para pensar, as apostas on-line eliminaram quase todas as barreiras que antes limitavam o jogo. Não é preciso deslocamento, dinheiro em espécie ou horário de funcionamento. Basta um telefone, uma conta e alguns segundos.

A velocidade do “suposto retorno” também importa. O resultado instantâneo encurta o intervalo entre expectativa, perda e nova tentativa. A pessoa não tem tempo para elaborar o prejuízo: aposta novamente. Depois, aumenta o valor. Em seguida, tenta recuperar o que perdeu. O ciclo se estabelece.

E pra arrematar, a publicidade faz o restante. Associa as apostas ao futebol, humor, sucesso e pertencimento, buscando a normalização de um comportamento que pode produzir consequências graves. A mensagem subliminar é poderosa: quem não aposta parece estar perdendo uma oportunidade. Mas, no jogo de azar, a oportunidade é desenhada para favorecer a banca. A promessa de controle é uma ilusão; escolher um time, um número ou uma modalidade não transforma acaso em competência.

Quando o lazer muda de nome

Nem toda pessoa que aposta desenvolverá transtorno do jogo (pois é, já existe um transtorno para diagnóstico). O sinal de alerta não está apenas no valor perdido, mas na relação estabelecida com a aposta.

É hora de prestar atenção quando alguém:

● tenta parar e não consegue;

● fica irritado ou inquieto quando não joga;

● pensa em apostar durante grande parte do dia;

● aumenta progressivamente os valores;

● aposta para recuperar perdas;

● esconde ou mente sobre o comportamento;

● pede empréstimos ou deixa de pagar compromissos;

● abandona família, estudos ou trabalho;

● usa a aposta para aliviar ansiedade, tristeza ou tensão.

Esses sinais não devem ser tratados como falta de caráter ou irresponsabilidade moral. O transtorno do jogo é uma condição de saúde reconhecida nos sistemas diagnósticos, associada à perda de controle e a prejuízos relevantes na vida pessoal, familiar, profissional e financeira. A Organização Mundial da Saúde inclui os transtornos relacionados a comportamentos aditivos na CID-11, e o Ministério da Saúde reconhece o transtorno do jogo como problema de saúde mental.

A pergunta correta, portanto, não é “por que essa pessoa não tem força de vontade?”. É sim: que fatores estão mantendo esse comportamento e que rede de cuidado pode ajudar a interrompê-lo?

A dívida é apenas o começo

O primeiro prejuízo costuma ser financeiro, mas raramente é o único. Dívidas podem desencadear conflitos conjugais, isolamento, insônia, alterações alimentares, queda no rendimento profissional e agravamento de quadros de ansiedade e depressão.

Além disso, a vergonha ainda empurra muitas pessoas para o silêncio. O apostador esconde perdas, inventa justificativas e evita pedir ajuda por medo de julgamento. A família, por sua vez, pode descobrir o problema apenas quando o dinheiro acaba ou quando surgem cobranças, empréstimos e ameaças de desestruturação patrimonial.

De quem é a responsabilidade?

É conveniente para o mercado apresentar o problema como uma escolha privada. Se alguém perde, a culpa seria exclusivamente do apostador. Essa narrativa ignora a arquitetura das plataformas, a publicidade permanente, os algoritmos de retenção e a velocidade das transações.

Não se trata de retirar a responsabilidade individual, mas de reconhecer que escolhas são influenciadas pelo ambiente. Uma pessoa vulnerável, exposta continuamente a anúncios de dinheiro fácil e a mecanismos de recompensa intermitente, não está tomando decisões em um vácuo. Ela possivelmente está sendo influenciada, e as vezes nem toma consciência disso. Por isso, a resposta pública precisa ir além de campanhas genéricas. É necessário fortalecer:

● Conscientização das pessoas, das empresas de apostas e dos influenciadores;

● mecanismos efetivos de autoexclusão e limites de depósito;

● proteção de crianças, adolescentes e pessoas vulneráveis;

● transparência sobre riscos e probabilidades;

● integração entre saúde, assistência social, defesa do consumidor e regulação;

● tratamento acessível para apostadores e familiares.

A promoção da saúde mental e a prevenção ao vício de apostas, não pode ficar nas mãos de quem lucra com a permanência do usuário na plataforma, deve ser responsabilidade de toda a sociedade.

Pedir ajuda não é fracassar

Quem percebe que perdeu o controle não precisa esperar a falência, a separação ou uma crise emocional para buscar atendimento. O SUS dispõe da Rede de Atenção Psicossocial, com portas de entrada pela Atenção Primária e atendimento especializado nos Centros de Atenção Psicossocial – CAPS.

Jogadores Anônimos e grupos de apoio podem complementar o cuidado. Em situações de crise emocional, o Centro de Valorização da Vida – CVV atende pelo telefone 188, gratuitamente, 24 horas por dia, conforme indicado no material analisado.

No fim, a frase continua verdadeira: a banca nunca perde. Quando a sociedade permite que o cassino esteja no bolso de cada cidadão, alguém sempre paga a conta. A questão é saber se vamos continuar chamando isso de entretenimento — ou se teremos coragem de reconhecer que estamos diante de um problema de saúde pública.

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Posted by Rodrigo Santana Psicólogo
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Psicólogo, mestre em Saúde Pública e doutor em Governança e Transformação Digital
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