A Ilha de Pi… Leia-se Brasília: o que nossos hábitos dizem sobre longevidade

O corpo tem dois modos, o do alerta e o do reparo, e o segundo só liga no silêncio

Roger Vila Verde
Por Roger Vila Verde 4 Min Leitura
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Entre movimento e descanso, nossas escolhas diárias também ajudam a definir como queremos envelhecer.Imagem: IA
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Em As Aventuras de Pi, o náufrago chega a uma ilha. Água doce, comida farta, chão firme. Uma salvação até anoitecer. À noite a mesma água vira ácido, a mesma ilha que nutria passa a digerir. Não é outro lugar: é o mesmo território cobrando o outro preço.

Brasília, de manhã, é essa ilha. Corrida no Parque da Cidade, pedal no Eixão fechado, braçada no Paranoá. Céu alto, ar seco, a sensação física de estar vivo. A cidade oferece espaço, sol e movimento e não é ilusão, ela entrega mesmo.
O problema é que o paraíso não fecha às seis.

Somos a capital do fitness e também uma das cidades que mais bebem. As duas coisas convivem sem se estranhar: a mesma Brasília que corre ao amanhecer bebe ao anoitecer. Não é contradição. É arquitetura.

Onde a cidade mora

E aqui está o que eu demorei a enxergar: essas duas cidades não moram só na cidade. Moram dentro da mesma pessoa. Existe um irmão sol e um irmão lua em cada um de nós o que acorda cedo para treinar e o que, à noite, precisa de uma dose para desligar. A ilha não escolhe entre os dois. Ela consome os dois, cada um no seu horário.

Conheço isso por dentro. Fui o irmão sol levado ao extremo: um Ironman nas pernas, a régua sempre subindo, o corpo virando desculpa para nunca parar. Um primo me chamou de homem de ferro e não sabia o quanto acertou ferro não descansa, ferro enferruja por dentro sem avisar. E o mesmo sujeito que treinava demais de dia era refém, de outras formas, quando o sol se punha. O sol que queima de tanto brilhar e a lua que só existe no escuro são o mesmo corpo, cansando por dois caminhos.

Faxina do sono

A física por baixo é simples. O corpo tem dois modos, o do alerta e o do reparo, e o segundo só liga no silêncio. O irmão lua desliga na marra, com álcool e álcool não é sono, é anestesia: você apaga, mas o corpo não repara. O irmão sol nunca desliga: acorda às cinco, não desacelera, dorme com o motor ligado. Um não deixa a noite trabalhar; o outro nem chega a parar. Duas maneiras de pular a única faxina que só o sono profundo faz. A ilha te mantém acordado enquanto te digere.
No filme, Pi não conserta a ilha. Ele foge. Escolhe o mar aberto incerto, sem promessa em vez da morte lenta num paraíso confortável.

O barco, aqui, cabe numa frase prática: faça do álcool um evento e do exercício uma rotina. A gente costuma inverter treina quando dá e bebe todo dia. Beber vira o hábito silencioso das noites de terça, e o corpo, que trata o álcool como veneno a metabolizar, passa a noite inteira trabalhando em vez de reparar. Invertido, cada um volta ao seu lugar: o movimento sustenta os dias, a bebida marca as ocasiões sociais que merecem. Não é privação. É devolver a noite ao reparo.

A ilha não muda. Ela nunca muda. Mas ferro pode aprender a descansar, e a lua não precisa de anestesia para dormir. É só isso que a noite pede.

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Posted by Roger Vila Verde
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Cirurgião-dentista pela Universidade de Brasília (UnB) 1991. Especialista pela USP-Bauru. Tecnólogo em Qualidade de Vida (MEC) e atleta master da equipe de natação SEL/DEFER. Autor do livro "Organismos Menores Vivem Mais — A Bússola da Longevidade Humana".
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