Brasil está entre países que mais avançaram no Pisa em 20 anos, mas desigualdades ainda preocupam

País aparece entre os dez que mais evoluíram em proficiência educacional desde 2006, enquanto resultados de 2025 mostram dificuldades em leitura e matemática e forte diferença de desempenho por renda

Flávia Marinho
Por Flávia Marinho 6 Min Leitura
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O país aparece entre as nações que mais avançaram em proficiência educacional nas últimas duas décadas, segundo análise do MECImagem: Reprodução
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O Brasil está entre os dez países que mais avançaram em proficiência educacional entre 2006 e 2025, segundo análise do Ministério da Educação (MEC) com base nos resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). No acumulado das últimas duas décadas, o país ocupa a 7ª posição em leitura e matemática e a 8ª em ciências entre mais de 50 nações avaliadas.

Apesar da evolução apontada pelo MEC, os resultados do Pisa 2025 mostram que o Brasil ainda enfrenta dificuldades no desempenho dos estudantes. Em leitura e matemática, o país não recuperou os níveis registrados em 2018, antes da pandemia. Em ciências, houve recuperação e superação do resultado daquele período.

Desempenho

Na comparação entre 2018 e 2025, a pontuação brasileira em leitura caiu de 413 para 408 pontos. Em matemática, o resultado passou de 384 para 377 pontos. Já em ciências, houve avanço de 404 para 409 pontos.

Na comparação com a edição anterior do Pisa, realizada em 2022, leitura e matemática registraram queda de dois pontos cada. Ciências teve aumento de seis pontos. Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), as variações estão dentro da margem de erro da pesquisa e não são estatisticamente significativas.

De acordo com o Inep, o Brasil recuperou e superou o desempenho pré-pandemia em ciências, além de registrar perdas menores que a média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em leitura e matemática.

Distância em relação à OCDE

A análise apresentada pelo MEC também aponta uma aproximação do Brasil em relação à média dos países da OCDE. Em leitura, a diferença de pontuação caiu de 102 para 58 pontos ao longo de 20 anos. Em matemática, a distância passou de 131 para 92 pontos. Já em ciências, a diferença diminuiu de 113 para 77 pontos.

O Pisa avalia estudantes de 15 anos e busca medir a capacidade de aplicar conhecimentos de leitura, matemática e ciências em situações do cotidiano. O levantamento também reúne informações sobre fatores associados à aprendizagem e sobre políticas e práticas educacionais.

Relação com a escola

Outro dado destacado na edição de 2025 é a percepção dos estudantes sobre a escola. Apenas 16% dos brasileiros avaliados consideraram que a escola é uma perda de tempo. O índice representa uma redução de 6,9 pontos percentuais em relação a 2022 e ficou abaixo da média da OCDE, de 24%.

A pesquisa também apontou mudanças relacionadas ao uso de celulares no ambiente escolar. Em 2025, 81% dos estudantes brasileiros estavam matriculados em escolas que tinham restrições ao uso de aparelhos eletrônicos. O percentual supera a média da OCDE, de 49%, e mais que dobra o registrado no Brasil em 2022, quando 37% dos alunos estavam em escolas com esse tipo de restrição.

A mudança ocorre após a aprovação da Lei nº 15.100/2025, que restringiu o uso de aparelhos eletrônicos pessoais nas salas de aula brasileiras, exceto em situações previstas para fins pedagógicos.

Desigualdade educacional

Apesar dos avanços, o Pisa 2025 também evidencia diferenças importantes no sistema educacional brasileiro. Em ciências, a distância de desempenho entre estudantes de diferentes faixas de renda chega a 96 pontos. Na média da OCDE, a diferença é de 85 pontos.

A frequência às aulas também aparece como um ponto de atenção. Segundo o levantamento, 55% dos estudantes brasileiros afirmaram ter faltado à escola por pelo menos um dia inteiro nas duas semanas anteriores à aplicação do teste. Na média da OCDE, o percentual foi de 22%.

Para Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco, os avanços não devem esconder as desigualdades existentes. Segundo ele, o desafio está em preparar todos os jovens brasileiros para um cenário de maior exigência cognitiva, e não apenas melhorar a posição do país no ranking internacional.

Henriques também considera relevante o fato de os estudantes continuarem atribuindo valor à escola. Para ele, essa confiança pode ser transformada em aprendizagem e em oportunidades.

Qualidade e equidade

O especialista avalia que o Brasil enfrenta dois desafios simultâneos: melhorar a aprendizagem média e reduzir o peso da origem socioeconômica sobre as oportunidades educacionais.

Na avaliação de Henriques, países que conseguiram reduzir o baixo desempenho enquanto ampliaram a aprendizagem demonstram que qualidade e equidade podem avançar juntas. Para ele, a educação pública deve ampliar as possibilidades dos estudantes independentemente da renda, da família ou do território onde vivem.

Sonia Dias, gerente de Desenvolvimento e Soluções do Itaú Social, também reconhece o avanço brasileiro no Pisa, mas ressalta que ainda existem fragilidades no sistema educacional. Entre os pontos citados estão a infraestrutura das escolas, a alocação de recursos e a qualidade da oferta educacional.

Para Sonia, os resultados mostram que o Brasil avançou nos últimos anos, mas ainda precisa melhorar para alcançar os padrões dos países que integram a OCDE.

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