O caso do Banco Master é do Banco de Brasília(BRB) expõe as dificuldades do sistema judiciário brasileiro em promover a rápida constrição patrimonial em investigações de grande complexidade.
Em novembro de 2025, a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero para apurar a suposta emissão de títulos de crédito falsos e carteiras fraudulentas. As investigações revelaram que o BRB comprou R$ 12,2 bilhões em créditos fraudulentos do Master, com prejuízo estimado em R$ 8,8 bilhões para o BRB só nessa movimentação apontada.
Lentidão nas investigações
Apesar da gravidade dos fatos, as medidas de bloqueio avançaram a conta-gotas. Em janeiro de 2026, o ministro Dias Toffoli determinou o bloqueio de bens e valores que superam R$ 5,7 bilhões em bens.
O BRB, por sua vez, teve que acionar o Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar assegurar prioridade na recuperação de valores que venham a ser identificados em investigações ou acordos de delação. A própria administração do banco reconhece que a iniciativa tem caráter “preventivo e cautelar” e que não há, neste momento, definição sobre valores a serem recuperados sintoma da lentidão que marca o processo.
O que se vê é um descompasso entre a velocidade com que o crime financeiro opera bilhões de reais circulam e se ocultam em dias e a morosidade das medidas coercitivas, que se arrastam por meses entre bloqueios parciais, retificações judiciais e novos pedidos.
Também em novembro de 2025, uma decisão judicial chegou a retificar despacho anterior para excluir o BRB das medidas de constrição patrimonial, separando a responsabilidade da pessoa jurídica da das pessoas físicas. Cada ida e volta no Judiciário representa tempo precioso perdido para a recuperação de ativos.
PF x gabinete de André Mendonça
O segundo ponto que merece atenção é o crescente atrito entre a Polícia Federal e o gabinete do ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF. O ministro tem adotado uma postura que, embora formalmente dentro de suas atribuições, tem gerado tensão com os investigadores.
Fraude no INSS
No caso do INSS que corre paralelamente ao Master a Polícia Federal chegou a acionar a Advocacia-Geral da União para contestar determinações de Mendonça que impuseram maior controle sobre as investigações. O ministro determinou o envio imediato de todas as apurações ao seu gabinete e o aviso prévio sobre qualquer eventual afastamento de integrantes da equipe policial. Agentes da PF enxergam nisso uma ingerência sobre a autonomia da corporação, enquanto aliados do ministro sustentam que se trata do papel de supervisão judicial.
Disputa institucional
O grande risco, como bem apontam advogados e magistrados, é que essa disputa institucional abra margem para futuras alegações de nulidades. No caso Master, a principal preocupação está ligada ao sigilo das apurações. Há o temor de que “vazamentos” possam levar a questionamentos à investigação. Na PGR, o escândalo do Banco Master é tratado como o “típico caso” em que se pode cavar nulidades “dez anos depois”.
A metodologia aplicada pelo gabinete do ministro pode comprometer todo o trabalho investigativo. O prejuízo pode ser a anulação de provas e decisões posteriores, exatamente como temem os investigadores, que se movimentam para “evitar questionamentos que abram margem para futuras alegações de nulidades”.
Medidas mais firmes
O terceiro ponto é talvez o mais estrutural. O Brasil atravessa fase crítica no combate às práticas de corrupção, e os crimes de colarinho branco como os do caso Master, que envolvem fraudes bilionárias, ocultação de patrimônio e desvios sofisticados que demandam uma resposta à altura.
As investigações do Banco Master revelaram um esquema que incluiu captação de dinheiro, aplicação em fundos e desvio para o patrimônio pessoal de Vorcaro, amigos, políticos e parentes. A PF identificou a criação e o uso de um conjunto de empresas imobiliárias como eixo de um suposto esquema de ocultação patrimonial. São mecanismos complexos, que exigem não apenas investigação técnica apurada, mas também um arcabouço legal que permita respostas céleres e efetivas.
Medidas mais firmes passam por pelo menos três frentes. A primeira é o fortalecimento dos instrumentos de constrição patrimonial, para que o bloqueio de bens ocorra em tempo hábil, antes que o produto do crime seja dissipado ou se dificulte o seu bloqueio, tais como separações e divórcios com divisão de bens, ocultação com laranjas e CNPJs fantasmas, uso de falsos trabalhos técnicos e outros meios já detectados.
A segunda é a garantia de autonomia investigativa à Polícia Federal, resguardando-a de ingerências que possam comprometer a imparcialidade e a técnica das apurações. A terceira é o aperfeiçoamento da legislação sobre crimes econômicos, com penas mais severas e mecanismos mais eficazes de recuperação de ativos como já apontam iniciativas como o pacote com 70 medidas anticorrupção e a ENCCLA 2026, que prevê o fortalecimento da prevenção e repressão à lavagem de dinheiro.
O caso Master/BRB é um teste para o sistema de justiça brasileiro. Se a demora nas apreensões, os conflitos institucionais e a falta de medidas restritivas mais firmes prevalecerem, a mensagem que se envia é clara: no Brasil, o crime de colarinho branco compensa. E isso, mais do que um problema jurídico, é uma ferida na credibilidade democrática do país.



