PF aponta pressão de ex-presidente do BRB para acelerar operações com Banco Master

Relatório cita cobranças por transações bilionárias, alertas sobre carteiras de crédito e operações fracionadas para evitar análise do Conselho de Administração.

Flávia Marinho
Por Flávia Marinho 6 Min Leitura
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A investigação também identificou operações fracionadas que somaram R$ 17,5 bilhõesImagem: Reprodução
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O ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, pressionou equipes internas da instituição para acelerar operações com o Banco Master, mesmo após receber alertas sobre irregularidades em carteiras de crédito. As informações constam em um relatório parcial da Polícia Federal (PF), divulgado na quarta-feira (28), que investiga suspeitas de fraude envolvendo as duas instituições.

Segundo o documento, mensagens analisadas pelos investigadores mostram que Costa definia prioridades, estabelecia prazos e cobrava a conclusão de transações. Em dezembro de 2024, após a identificação de problemas em uma carteira de crédito ainda sob análise, ele cobrou rapidez na avaliação de uma operação de R$ 71 milhões.

Na ocasião, o então diretor de Finanças do BRB, Dario Oswaldo Garcia Junior, respondeu que pressionaria a equipe responsável pela análise. Para a PF, as conversas indicam que a atuação do ex-presidente ultrapassava a supervisão institucional e envolvia participação direta na execução dos negócios.

Operações bilionárias e cobrança por rapidez

O relatório também registra uma mensagem enviada por Costa em 23 de dezembro de 2024, na qual ele enumerou cinco operações que pretendia concluir. As transações envolviam compras de carteiras de crédito e vendas de créditos inadimplentes, com valores que somavam aproximadamente R$ 1 bilhão.

Entre os negócios citados estavam a compra de carteiras Credcesta de R$ 408 milhões e R$ 196 milhões, além da liquidação de uma venda de créditos inadimplentes de R$ 200 milhões, acrescida de atualização monetária.

De acordo com a investigação, Costa estabeleceu como prioridade concluir as operações de R$ 408 milhões e R$ 200 milhões no mesmo dia. Ele também defendeu a liquidação da carteira de R$ 196 milhões ainda naquela data.

Para a PF, as mensagens demonstram que as operações eram organizadas de acordo com um cronograma de aquisições e com as necessidades de liquidez do Banco Master.

Alertas sobre irregularidades

A investigação aponta que integrantes da cúpula do BRB já haviam recebido informações sobre problemas nas carteiras de crédito apresentadas pelo Banco Master. Entre os alertas estavam margens consideradas incompatíveis, índices de inadimplência de 28% e 15% e falhas nas planilhas utilizadas nas operações.

Apesar dos questionamentos, 13 das 14 notas executivas que iniciavam os processos de aquisição teriam sido aprovadas antes da conclusão dos pareceres técnicos, conforme o relatório.

A Polícia Federal também questiona o fracionamento das compras de carteiras. Segundo o documento, a Diretoria Colegiada do BRB tinha competência para deliberar sobre operações de até R$ 750 milhões. Negócios acima desse limite precisavam passar pelo Conselho de Administração.

Das 25 transações aprovadas pelo colegiado, que totalizaram R$ 17,5 bilhões, 21 foram fixadas exatamente no limite de R$ 750 milhões. Para os investigadores, o padrão merece atenção diante das regras internas de governança do banco.

Crise do BRB e investigação

O BRB, que tem o Governo do Distrito Federal como acionista majoritário, enfrenta uma crise relacionada às operações realizadas com o Banco Master, instituição que teve sua compra pelo banco público barrada pelo Banco Central.

O BRB chegou a movimentar R$ 16,7 bilhões em negócios relacionados ao Master. Posteriormente, foram identificados problemas em parte das carteiras adquiridas, apontadas na investigação como fraudulentas e sem lastro adequado.

O caso é investigado no âmbito da Operação Compliance Zero. Ao todo, a Polícia Federal indiciou 15 pessoas, entre ex-dirigentes do Banco Master, integrantes da empresa Tirreno e ex-gestores do BRB. Entre os nomes estão Daniel Vorcaro, ex-controlador do Master, Paulo Henrique Costa e Augusto Lima.

O indiciamento representa a conclusão da PF sobre a existência de indícios de crimes, mas não equivale a uma denúncia apresentada pelo Ministério Público nem a uma condenação judicial.

Defesas contestam relatório

A defesa de Paulo Henrique Costa afirma que ele não tinha conhecimento das fraudes e que foi responsável por identificar irregularidades nas carteiras. Segundo os advogados, o ex-presidente exigiu garantias, cobrou a substituição de ativos e comunicou os fatos ao Banco Central. A defesa também sustenta que as decisões foram tomadas de forma colegiada e que Costa atuou no interesse do BRB.

Já os advogados de Daniel Vorcaro contestam o indiciamento e afirmam que a investigação ainda não foi concluída, com perícias e análises financeiras pendentes. A defesa nega a existência de prejuízo comprovado ao BRB e pede o arquivamento do inquérito e a revogação da prisão preventiva.

A defesa de Augusto Lima também rejeita as conclusões da PF e afirma que ele não participou das fraudes investigadas. Os advogados argumentam que o relatório se baseia em interpretações equivocadas de mensagens e ressaltam que o documento não representa uma condenação.

As investigações seguem em andamento, e os citados mantêm o direito à presunção de inocência.

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