A identidade de um povo é construída pelos mais variados aspectos, como a língua. Tanto é assim que, historicamente, ao subjugar uma cultura, a primeira ação do opressor costuma ser a imposição de sua cultura, em especial, de seu próprio idioma. Isso se dá principalmente porque a construção de processo de identificação se consolida por meio da linguagem e das narrativas sociais, além das imagens, valores e memórias que definem o pertencimento das pessoas a uma comunidade.
Memória compartilhada
Considerando essa perspectiva, podemos dizer que é o discurso que possibilita a consolidação de uma memória compartilhada por esse grupo e que faz a sociedade se reconhecer por meio da comunhão de valores, de princípios e de ideias. Em nosso cotidiano, vemos uma série de ideias que perpassam nossas falas sem que nós mesmos percebamos o quanto elas estão eivadas de ideologias, muitas delas carregando preconceitos, ódios e desinformação. Um exemplo disso está na fala de uma deputada eleita ao afirmar que acha natural que um homem lhe diga que ela tem de voltar pra cozinha ou esquentar a barriga no fogão quando discorda dela, posto que se trata de uma piada apenas.
Discursos violentos
Nesse exemplo, vemos o quanto o discurso machista se consolidou a ponto de uma mulher não perceber sua gravidade ou mesmo validar a repetição de falas que são nitidamente violentas. Dessa mesma forma, discursos racistas, homofóbicos, misóginos, xenofóbicos, dentre tantos outros, são naturalizados, legitimando-se valores e princípios que atacam minorias e que servem de mote para a não superação dessa realidade.
Para além da aceitação tácita do discurso recreativo em que se justificam preconceitos e discriminações os mais diversos, temos ainda a defesa de uma pseudo liberdade de expressão. Tal argumento, no entanto, não pode servir à proteção da violência e do extermínio do outro.
O uso do discurso de ódio pressupõe validar o desrespeito ao outro, por meio da comunicação falada, escrita, visual ou comportamental, ao atacar, inferiorizar, ridicularizar ou incitar a violência e a discriminação contra uma pessoa ou um grupo com base em fatores de identidade reais ou percebidos. É fundamental, portanto, que não permitamos que tais discursos sejam normalizados onde quer que estejamos sob o custo de vermos serem internalizados como parte de nossa cultura e, consequentemente, como característica identitária de cada um e cada uma de nós.



