Lula diz que SUS fornecerá canetas emagrecedoras

Presidente afirmou que medicamentos serão oferecidos gratuitamente, mas incorporação ao sistema público exige definição de protocolo, avaliação técnica e análise dos custos

Flávia Marinho
Por Flávia Marinho 6 Min Leitura
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Lula anunciou que as chamadas canetas emagrecedoras serão oferecidas gratuitamente pelo SUS, mas o medicamento ainda não está disponível de forma ampla na rede públicaImagem: Divulgação
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, durante evento em Montes Claros (MG), que as chamadas canetas emagrecedoras serão oferecidas gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Apesar do anúncio, os medicamentos ainda não estão disponíveis de forma ampla na rede pública e dependem de etapas técnicas e administrativas antes de chegarem aos pacientes.

Segundo o Ministério da Saúde, a disponibilização será feita de forma responsável, com base em estudos e na definição de um protocolo clínico. Atualmente, a pasta acompanha um estudo com semaglutida em pacientes do SUS para avaliar os efeitos do tratamento e como ele poderia ser aplicado na rede pública.

O que ainda falta para o medicamento chegar ao SUS

A incorporação de um medicamento ao SUS não ocorre apenas por meio de um anúncio do governo. A tecnologia precisa passar por avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), que analisa evidências científicas, segurança, eficácia e aspectos econômicos.

No caso da semaglutida, já houve uma avaliação anterior da Conitec. Em 2025, a comissão recomendou a não incorporação do medicamento para um grupo específico de pacientes com obesidade grau II e III, sem diabetes, com 45 anos ou mais e doença cardiovascular estabelecida. A decisão foi formalizada pelo Ministério da Saúde em setembro daquele ano.

O cenário atual, porém, envolve novas análises e estudos. A agenda oficial da Conitec prevê reunião ordinária entre os dias 7 e 9 de outubro de 2026.

Além da avaliação técnica, será necessário definir um protocolo clínico que estabeleça quais pacientes poderão receber o tratamento, em quais condições e por quanto tempo. Essa definição também será importante para calcular o impacto financeiro da medida.

Estudo com 250 pacientes

Uma das principais iniciativas do Ministério da Saúde é o projeto desenvolvido pelo Grupo Hospitalar Conceição (GHC), em Porto Alegre (RS). O estudo começou em junho e acompanha cerca de 250 pessoas com obesidade grave ou associada a outras doenças e que possuem indicação para cirurgia bariátrica.

Os pacientes recebem semaglutida dentro de um protocolo de pesquisa acompanhado por profissionais de saúde. A iniciativa pretende avaliar aspectos clínicos, operacionais e econômicos do tratamento e entender como a tecnologia poderia ser aplicada em maior escala no SUS.

De acordo com o Ministério da Saúde, o primeiro paciente do estudo já apresentou perda de peso e redução da circunferência abdominal. Os resultados da pesquisa serão utilizados para ajudar na elaboração de diretrizes para uma eventual oferta mais ampla do medicamento na rede pública.

Preços caíram com a entrada de novos medicamentos

Enquanto o governo avalia a incorporação ao SUS, o mercado brasileiro passou a contar com mais opções de medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1.

O Ministério da Saúde afirma que o Brasil já possui 14 produtos registrados para o tratamento da obesidade. A ampliação da concorrência também contribuiu para reduzir os preços. Segundo a pasta, medicamentos que chegavam a custar entre R$ 1,7 mil e R$ 2 mil passaram a ser encontrados na faixa de R$ 300 a R$ 400 em alguns casos.

Em julho, a Anvisa também anunciou o registro de cinco novos medicamentos à base de semaglutida. A estratégia faz parte de uma política do Ministério da Saúde para ampliar a oferta, estimular a produção nacional e reduzir os custos desses tratamentos.

Impacto financeiro é um dos principais desafios

Outro ponto que precisa ser definido é quanto a incorporação poderá custar aos cofres públicos. O valor depende diretamente de quais pacientes terão direito ao tratamento, da dose utilizada e do período de uso.

A análise feita pela Conitec em 2025 apontou elevado impacto orçamentário e questões relacionadas ao custo-efetividade da semaglutida. Na avaliação, também foi destacada a necessidade de combinar o medicamento com outras estratégias de cuidado para o tratamento da obesidade.

Por isso, uma eventual oferta pelo SUS deverá considerar não apenas o preço do medicamento, mas também o acompanhamento médico e a estrutura necessária para o tratamento.

Medicamento não substitui o acompanhamento médico

Apesar de serem conhecidas popularmente como “canetas emagrecedoras”, essas tecnologias são medicamentos destinados ao tratamento de condições de saúde específicas e precisam ser utilizadas com indicação e acompanhamento profissional.

O próprio Ministério da Saúde afirma que a incorporação não será tratada como uma solução estética, mas como parte do cuidado de pessoas que precisam do tratamento para a obesidade e outras condições associadas.

A discussão sobre a oferta no SUS, portanto, envolve mais do que disponibilizar as canetas gratuitamente. Será necessário estabelecer critérios para o acesso, garantir acompanhamento adequado e definir como o sistema público conseguirá manter o fornecimento de forma contínua.

Por enquanto, a promessa anunciada pelo presidente ainda depende dessas etapas. O estudo em andamento, as avaliações da Conitec e a definição do protocolo serão fundamentais para determinar quando e para quais pacientes o medicamento poderá, de fato, ser disponibilizado gratuitamente pelo SUS.

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