Banco Master usou Word, PDFs e códigos para fabricar documentos falsos, diz PF

Perícia identificou uso de dados reais de clientes, produção em massa de procurações, reaproveitamento de assinaturas e alteração de documentos para dar aparência de legitimidade a créditos atribuídos à Tirreno Consultoria

Paulo Cesar Sampaio
Por Paulo Cesar Sampaio 13 Min Leitura
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A perícia encontrou diferenças entre as datas dos documentos e os registros das assinaturas digitais, além de arquivos que tiveram informações apagadas ou modificadasImagem: Reprodução

A Polícia Federal identificou uma estrutura digital montada dentro do Banco Master para produzir documentos que seriam usados como comprovação de créditos consignados atribuídos à Tirreno Consultoria e posteriormente negociados com o Banco de Brasília (BRB). Segundo relatório técnico-pericial, funcionários utilizaram dados reais de clientes, ferramentas de edição, programação e assinaturas digitais para criar e reunir documentos em escala.

A investigação descreve o funcionamento como uma espécie de “linha de montagem”. Dados de operações antigas eram extraídos dos sistemas internos, usados para preencher documentos em massa e combinados com páginas de assinaturas retiradas de arquivos originais. Em seguida, datas e outras informações capazes de indicar a origem dos documentos eram alteradas ou apagadas. A perícia encontrou registros digitais que permitiram reconstruir parte dessa cronologia.

Dados reais foram usados na produção dos documentos

Segundo a PF, o primeiro passo consistia em obter informações de clientes que já tinham realizado operações legítimas. Entre os dados utilizados estavam nome, CPF, data de nascimento e nome da mãe.

Parte dessas informações estava relacionada ao CredCesta, produto de crédito consignado destinado a servidores públicos, aposentados e pensionistas.

Em 2 de julho de 2025, Fabrizio Pereira Alencar, coordenador de Controles do Back Office, solicitou a Vinicius Lucas Trentino, analista de Projetos Sênior da área de Tecnologia, um levantamento de CPFs por meio do Microsoft Teams.

Vinicius reuniu os dados no arquivo cpf_cessao.csv e, no dia seguinte, executou uma consulta chamada Contratos_Henrique_Dados.sql no banco de dados interno. O resultado foi exportado para a planilha Dados_cessão.xlsx, enviada posteriormente a Fabrizio e à equipe.

As próprias conversas entre funcionários da área de tecnologia indicaram que havia inconsistências na base utilizada.

Em uma troca de mensagens, Rafael Manfrin da Silva apontou que um dos CPFs encontrados tinha apenas uma proposta registrada em 2019 e classificou a lista como “meio furada”.

2.700 procurações produzidas em lote

Com os dados reunidos, uma das etapas seguintes foi a produção das procurações. Para isso, Allan da Silva Machado, gerente de Operações I do Back Office, utilizou a função de mala direta do Microsoft Word.

A ferramenta permite conectar um modelo de documento a uma planilha e preencher automaticamente os campos de cada registro. De acordo com a perícia, Allan vinculou o arquivo PROCURACAO Master.docx à planilha Base de Geração CCBS AMANHA 1.xlsx, armazenada na pasta de trabalho Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras.

O procedimento possibilitou a geração de 2.700 procurações em lote em 20 de junho de 2025.

A tecnologia, segundo a investigação, permitiu reproduzir rapidamente a mesma estrutura documental para centenas ou milhares de registros.

Programação foi usada para separar assinaturas

A área de tecnologia também participou do tratamento dos documentos. Thiago Ramalho, Rafael Manfrin da Silva e Renato M. aparecem relacionados ao desenvolvimento de aplicações em C# registradas no repositório GitHub do Banco Master.

Uma das funções identificadas pela perícia permitia extrair de arquivos PDF apenas a segunda página, correspondente à página de assinatura dos documentos originais.

Também foi encontrado o arquivo compactado erros-whatsapp.zip, enviado por Anderson Juliano Caspinelli Garcia a Moacir Lourenço da Silva Junior. Segundo a PF, o arquivo continha 1.833 PDFs com páginas de assinatura isoladas de Termos de Consentimento.

Essas páginas poderiam ser reaproveitadas na montagem de novos conjuntos documentais.

Assinaturas digitais revelaram diferenças nas datas

Outra etapa envolvia as Cédulas de Crédito Bancário, conhecidas como CCBs. Henrique Pupo e Henrique Gonçalves Silva participaram da extração de lotes de documentos do sistema idtrust.

Em 20 de junho, Fabrizio organizou uma força-tarefa para a assinatura dos arquivos. Foram separados 675 CCBs para cada um de quatro operadores: Fabrizio, Henrique, Allan e Daniel Guscuma.

As assinaturas foram aplicadas pelo Adobe Acrobat Reader com certificados digitais vinculados ao Banco Master e a Allan Machado.

A perícia identificou, nesse processo, uma diferença entre as datas apresentadas nos documentos e os registros criptográficos das assinaturas.

Em determinados arquivos, a data escrita na CCB indicava uma operação anterior. Em um dos exemplos, o documento apresentava a data de 21 de janeiro de 2025, enquanto o registro da assinatura digital apontava que o arquivo havia sido assinado em 20 de junho de 2025, às 14h02min39s.

A diferença permitiu aos peritos identificar que documentos apresentados como anteriores tinham recebido assinatura digital posteriormente.

Datas foram retiradas dos Termos de Consentimento

A investigação também encontrou indícios de alteração das datas presentes nos Termos de Consentimento.

Em uma conversa no Teams, em 20 de junho, Allan Machado solicitou a Moacir Lourenço da Silva Junior que retirasse a data dos documentos.

Um exemplo analisado pela perícia foi o Termo de Consentimento de Genilson Lima Leal. O arquivo apresentava originalmente a informação de 24 de fevereiro de 2023, às 13h05. Em uma edição realizada em 3 de julho de 2025, às 15h26, o registro foi retirado visualmente do documento.

A alteração, porém, não eliminou todos os vestígios digitais. Registros do próprio arquivo e das assinaturas permitiram aos peritos reconstruir parte da sequência de produção e identificar diferenças entre as datas apresentadas e os momentos em que os documentos foram efetivamente manipulados.

Documentos eram reunidos em novos dossiês

Depois da produção e alteração das peças, os arquivos eram reunidos em um único documento.

Segundo a PF, Allan utilizou o PDF24 para combinar CCBs, procurações e Termos de Consentimento em um único PDF por operação.

Os arquivos finais foram organizados em pastas de rede identificadas como Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras, Demanda BRB-Tirreno 299 amostras e Demanda BRB-Tirreno 119 amostras.

Com isso, documentos produzidos ou modificados separadamente passavam a formar um conjunto documental único.

Comprovantes de transferências também foram alterados

A tentativa de retirar informações que poderiam revelar a origem dos documentos chegou aos comprovantes bancários.

Em 25 de junho de 2025, Allan Machado discutiu com Romy Goerck Gentina Klenquen a possibilidade de modificar comprovantes de transferências realizadas por SPB e PIX.

Entre as informações que Allan queria retirar estavam o evento, o número do contrato e o histórico. Em alguns documentos, o histórico apresentava a expressão “LIBERAÇÃO CREDCESTA VIA PIX”.

A conversa também revelou dificuldade para realizar as alterações em grande escala. Romy afirmou que conseguiria modificar um ou outro documento, mas considerou inviável repetir o procedimento manualmente em 2.700 comprovantes.

Auditoria da Deloitte também aparece na investigação

As mensagens analisadas pela PF indicam que os funcionários também discutiam como explicar eventuais inconsistências encontradas durante auditorias.

Em 23 de junho, Fabrizio informou a Alberto Felix de Oliveira Neto que a Deloitte estava cobrando informações. Segundo a investigação, Alberto respondeu que determinada inconsistência deveria ser atribuída a “erro operacional na seleção”.

Dois dias antes, Fabrizio e Alberto haviam conversado sobre o envio de documentos relacionados à carteira da Tirreno entre dezembro de 2024 e março de 2025.

Entre os arquivos solicitados estavam CCBs e Termos de Consentimento.

Documentação chegou ao proprietário do banco

A investigação também identificou o envio de amostras dos documentos produzidos na operação.

Em 12 de junho de 2025, Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, pediu a Alberto Felix um “kit dos 300 com assinatura digital”.

Alberto respondeu que providenciaria o material. Minutos depois, informou que tinha acesso naquele momento apenas às CCBs e que Allan enviaria os links das procurações e das assinaturas.

Na sequência, foram compartilhados arquivos com os documentos.

Quem aparece na operação

Daniel Vorcaro: proprietário do Banco Master. Segundo a PF, pediu um conjunto de 300 operações com assinatura digital e recebeu arquivos relacionados às CCBs, procurações e assinaturas.

Alberto Felix de Oliveira Neto: diretor. Aparece na supervisão da operação, no contato com Vorcaro e nas tratativas relacionadas à auditoria da Deloitte.

Fabrizio Pereira Alencar: coordenador de Controles do Back Office. Distribuía tarefas, coordenava etapas de produção e assinatura dos documentos e tratava de demandas da auditoria.

Allan da Silva Machado: gerente de Operações I do Back Office. Produziu procurações em massa, participou da retirada de datas, reuniu documentos em PDFs e discutiu alterações em comprovantes bancários.

Vinicius Lucas Trentino: analista de Projetos Sênior da área de TI. Participou da extração de CPFs e outros dados dos sistemas internos.

Thiago Ramalho: integrante da área de TI. Participou do desenvolvimento de códigos utilizados no tratamento de PDFs e na extração de páginas de assinatura.

Rafael Manfrin da Silva: integrante da área de TI. Participou de consultas e rotinas relacionadas à geração dos documentos e identificou inconsistências na base de CPFs.

Renato M.: aparece relacionado aos aplicativos desenvolvidos para manipulação de arquivos PDF.

Moacir Lourenço da Silva Junior: integrante do Back Office. Recebeu arquivos com páginas de assinatura e foi acionado para retirar datas e horários de documentos.

Anderson Juliano Caspinelli Garcia: integrante da área de TI. Enviou arquivo com 1.833 PDFs contendo páginas de assinatura isoladas.

Romy Goerck Gentina Klenquen: integrante da área operacional. Discutiu com Allan formas de alterar comprovantes de transferências em grande escala.

Henrique Pupo: integrante do Back Office de consignado. Participou da extração de CCBs.

Henrique Gonçalves Silva: integrante do Back Office de consignado. Também participou da extração de CCBs.

Daniel Guscuma: funcionário do Banco Master. Recebeu, junto a outros operadores, parte das CCBs destinadas à assinatura.

Uma cadeia digital para montar os documentos

O conjunto de evidências reunido pela Polícia Federal descreve uma sequência que começava na extração de dados de clientes e terminava na criação de dossiês documentais.

Primeiro, informações de operações reais e antigas eram retiradas dos sistemas internos. Depois, esses dados eram utilizados para preencher documentos em escala. Páginas de assinaturas eram separadas dos arquivos originais, CCBs recebiam assinaturas digitais e informações capazes de indicar a origem dos documentos eram retiradas.

Por fim, as diferentes peças eram reunidas em arquivos únicos que apresentavam a documentação como um conjunto.

Segundo o relatório pericial, a estrutura tinha como finalidade sustentar documentalmente a existência de uma carteira de créditos consignados atribuída à Tirreno Consultoria. A empresa aparece na investigação como parte de uma relação envolvendo Tirreno, Banco Master e BRB, em operações que somariam R$ 7,15 bilhões em cessões de créditos consignados consideradas fictícias pela investigação.

Apesar das alterações, a perícia encontrou vestígios digitais. A diferença entre as datas registradas nos documentos e os horários das assinaturas digitais foi uma das principais evidências apontadas pelos peritos para reconstruir quando parte dos arquivos havia sido produzida ou modificada.

A investigação, portanto, aponta não apenas para a criação de documentos, mas também para uma tentativa de alterar informações que poderiam revelar a origem e a cronologia dos arquivos. A Polícia Federal busca esclarecer a participação de cada envolvido e a extensão das operações investigadas.

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