El Niño ganha força e eleva risco de chuvas extremas e incêndios no Brasil

Fenômeno já apresenta efeitos no país e pode atingir intensidade histórica até o fim de 2026, segundo boletim que reúne dados de órgãos oficiais

Flávia Marinho
Por Flávia Marinho 5 Min Leitura
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Os dados mais recentes apontam para um possível episódio de grande intensidade até o fim de 2026Divulgação/Nasa
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O El Niño, que pode alcançar uma das maiores intensidades já registradas, já apresenta sinais no Brasil. Dados reunidos pelo Instituto ClimaInfo indicam aumento das chuvas no Rio Grande do Sul, padrão associado historicamente ao fenômeno. Na última semana de julho, mais de 84 mil pessoas em 171 municípios gaúchos foram afetadas.

O Sul costuma ser a primeira região do país a sentir os efeitos do El Niño, ainda durante a primavera. O fenômeno provoca o aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial e altera o regime de chuvas em diferentes áreas do Brasil.

Impactos no mapa de chuvas

O El Niño tende a provocar mais chuva no Sul e períodos de seca mais prolongados no Norte e no Nordeste. Na Amazônia e no Cerrado, o cenário também pode elevar o risco de incêndios florestais.

Em 2026, a anomalia da temperatura do Pacífico já chegou a 1,8°C, acima da média histórica para o período. O modelo europeu ECMWF projeta um pico superior a 3°C entre setembro e dezembro. Metade das simulações aponta para uma marca próxima de 3,3°C.

Apesar da possibilidade de agravamento das condições, as queimadas registraram queda em junho. Segundo dados citados no boletim, o número ficou 27% abaixo da média histórica e 14% menor que o registrado em 2025. O governo atribui o resultado ao aumento do número de brigadistas e à Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo.

A perspectiva, porém, pode mudar nos próximos meses. A influência do El Niño tende a intensificar a seca na Amazônia e no Cerrado, o que pode aumentar o risco de incêndios pelo menos até o fim de setembro.

Possibilidade de evento histórico

Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), o fenômeno pode se tornar um dos episódios mais intensos registrados desde 1950, quando começaram as medições.

A agência estima mais de 90% de probabilidade de ocorrência de um El Niño muito forte até 2027 e 69% de chance de que o episódio alcance intensidade histórica. Nesse cenário, a anomalia da temperatura da superfície do mar pode chegar a 2,5°C ou mais no último trimestre de 2026.

A NOAA também aponta 95% de probabilidade de um evento muito forte entre outubro e dezembro de 2026. A previsão indica que o Hemisfério Norte deve concentrar os maiores impactos nesse período.

Prejuízos causados por eventos extremos

O avanço do El Niño aumenta a preocupação com os impactos econômicos dos eventos climáticos extremos. Entre 2022 e 2024, 67 ocorrências relevantes provocaram prejuízos estimados em R$ 184 bilhões no Brasil, segundo levantamento da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), elaborado em parceria com a consultoria EY.

Apenas 9% dessas perdas tinham cobertura de seguros. Em 2025, somente 2,3% da área produtiva brasileira contava com proteção securitária, apesar do crescimento dos eventos climáticos extremos na última década.

De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), episódios de El Niño estão associados a chuvas mais volumosas no Sul e à redução das precipitações em partes do Norte e do Nordeste.

Para o setor de seguros, a concentração de diferentes tipos de perdas no mesmo período representa um desafio. Agricultura, imóveis, veículos, infraestrutura e empresas podem sofrer impactos simultâneos, ampliando os prejuízos provocados por eventos extremos.

Monitoramento semanal

O Boletim do El Niño é publicado semanalmente pelo Instituto ClimaInfo. A publicação cruza informações de órgãos e agências federais, como Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Inmet e Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), além de dados da imprensa nacional e internacional sobre o fenômeno.

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