A incapacidade de lidar com o ócio, com a vida e com quem somos

Devemos compreender a importância de lidar com o ócio – aquele que nos permite parar e pensar

Sandra Mara Bessa
Por Sandra Mara Bessa  - Professora 4 Min Leitura
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Hiperconexão e relações cada vez mais superficiais desafiam a formação humana de crianças, jovens e adultosImagem: IA
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A sociedade tem moldado nosso modo de ver o mundo e a vida de uma maneira muito peculiar nestes novos tempos de tanta conexão digital. Somatizamos problemas, dores, estresse; normalizamos depressões, pânico e burnout; desconsideramos as dores alheias e as nossas próprias sob a capa de uma indiferença que machuca, agride, violenta. E vemos estes comportamentos serem internalizados desde a infância, quando se perpetuam o egocentrismo tão presente ali nos três anos de idade, o que nos faz agir e escolher sempre com base no que nos interessa, no que nos toca, no que nos traz vantagens.

Distopias comportamentais

Dessa forma, vão se construindo as distopias comportamentais que temos assistido e que envolvem jovens e adultos que não sabem lidar com frustrações de qualquer natureza; não conseguem ouvir negativas; não convivem bem com as diferenças; não suportam ser contrariados e não conseguem enfrentar obstáculos e dificuldades. Dividem a responsabilidade de seus atos com os outros, sendo incapazes de uma autorreflexão. Ao mesmo tempo, buscam se adequar aos contextos, às exigências dos grupos a que pertencem, desconsiderando valores e princípios básicos de convivência social saudável.

Adoecimento emocional

São jovens que adentram nossas casas e não conseguem se comunicar, manter o olhar durante um diálogo, discutir qualquer tema que exija o mínimo de conhecimento. Alguns sequer conseguem ser educados e cumprimentar quem já estava no local. Quando muito, respondem aos cumprimentos que lhes são dirigidos. Têm um mundo de amigos e não mantêm qualquer conexão verdadeira. Amigos digitais… Conversas fragmentadas… Riscos inúmeros… E um dia, sem que percebamos, a conta chega por meio das doenças físicas e emocionais que se instauram como resultado da vida corrida, da exaustão, da superficialidade das relações, da ausência de humanidade.

Adultos disfuncionais

Esse ser que colapsa não sobrevive a tantas violências e a dinamicidade que toma conta de nossos dias. Sobrecarregamos as nossas crianças para que se preparem para um mundo competitivo; abandonamos nossos adolescentes em um mundo virtual que tem deformado seu caráter sem que nos apercebamos onde e quando se perderam; criamos adultos disfuncionais sob vários aspectos, mas especialmente em sua formação humana, posto que não conseguem deitar um olhar sobre o que lhes rodeia, aceitando discursos vis e adotando-os como se estes fossem compatíveis com valores que defendem como se fossem virtuosos.

Precisamos parar. Há que se reverter essa barbárie que violenta, mata, acua, adoece. Não nos basta sobreviver. Necessitamos viver com dignidade em uma sociedade que seja construída com base em valores humanitários. Educar para acolher e não para vilipendiar. Educar para respeitar e não para a perseguir. Educar para compreender e não para humilhar. E isso se faz desde a primeira infância, quando deixamos as crianças serem crianças em toda a sua plenitude. Devemos compreender a importância de lidar com o ócio – aquele que nos permite parar e pensar sobre quem somos e o impacto do que fazemos na vida de todos.

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Posted by Sandra Mara Bessa Professora
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Gestora de projetos e especialista em Educação
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