Conexões profundas em tempos de superficialidade digital

A tecnologia, que poderia ser uma ponte, muitas vezes vira um muro invisível

Rodrigo Santana
Por Rodrigo Santana  - Psicólogo 5 Min Leitura
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A presença verdadeira continua sendo o elemento mais importante para fortalecer vínculos e construir relações duradouras.Imagem: IA
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Já parou para pensar que existe algo diferente e curioso sobre como estamos nos relacionando com as outras pessoas nos dias atuais? Pois bem, escrevemos mais, falamos mais, postamos constantemente, entretanto de forma paradoxal, sentimos que estamos menos conectados com as pessoas.

É como se a nossa intimidade com as pessoas, tivesse se transformado em um produto de consumo rápido, disponível ali na tela em forma de pequenos pacotes virtuais. É como se a presença física, estivesse de forma gradativa, sendo trocada por notificações, mensagens instantâneas, emojis e curtidas. Mas o que isso impacta nas nossas vidas?

Maximizar interações

A intimidade, exige dedicação, tempo, escuta. Nada disso combina com o ritmo acelerado das redes sociais, nem tão pouco com o engajamento. Não deveríamos permitir que a lógica da produtividade das redes, mudasse a lógica dos nossos afetos: não dá para “otimizar” nossos vínculos, com foco em maximizar interações com menos “esforço”.  

A armadilha de nos habituarmos a relacionamentos por telas pode acabar nos levando a uma intimidade filtrada. Num exemplo prático, é como se construíssemos versões de nós mesmos altamente palatáveis, projetadas para serem bem aceitas. Daí, editamos possíveis vulnerabilidades, apagamos conflitos e vamos esquecendo que intimidade não se sustenta apenas com o bonito, com o perfeito, mas sim com o que é real, contraditório e imperfeito.

Presença

Mas a intimidade não é só presença física, mas a presença inteira emocional, cognitiva, afetiva. Exige que estejamos de fato ali, e não apenas por conveniência. Significa olhar nos olhos, perceber o silêncio do outro, fazer leitura de cenários, notar o desconforto, sustentar conversas difíceis sem a fuga automática.

Parece simples, mas, num mundo em que a distração é o padrão, estar inteiro com alguém virou quase um exercício de disciplina. Imagine, estar numa conversa e não dar uma escapadinha para dar uma olhada no que está acontecendo na internet? Pois é, talvez o maior aliado dessa prática é a dopamina! Essas novidades, curtidas, mensagens geram uma pequena recompensa cerebral. As pessoas acabam se acostumando com esses reforços dopaminérgicos, atrelados a rolagem das telas, algoritmos e se desacostumam com a construção de recompensas sólidas e duradouras, fruto da intimidade real.

Relações familiares

Nas relações familiares, por exemplo, isso se expressa em jantares silenciosos, onde cada pessoa está em uma tela diferente. Pais que se comunicam com filhos por mensagem estando na mesma casa. Parceiros que resolvem conflitos em aplicativos, porque não conseguem sustentar a tensão olho no olho. A tecnologia, que poderia ser uma ponte, muitas vezes vira um muro invisível. O que deveria aproximar vai normalizando o afastamento.

Mas tudo tem como ser aperfeiçoado ou corrigido! Só depende da gente! Escolhemos com quem queremos estar mais presentes, quais relações queremos cuidar, em quais vínculos vamos nos dedicar para além do “curtir” e “visualizar”. Devemos ter a consciência de que só depende de nós mesmos. Assumir que vamos investir tempo, atenção e escuta naquele vínculo, e entendermos que isso trará, inevitavelmente, desafios, conflitos e necessidade de ajustes nas relações.

No fim, a reflexão não é se a tecnologia destruiu a intimidade, mas se nós, ao delegarmos demais aos dispositivos, esquecemos de cultivar o encontro real. Podemos sim, utilizar as telas pode aproximar, mas não vamos substituir o abraço quando for possível! Mensagens instantâneas podem confortar, mas não substituem o olhar sincero. A conexão pode ser digital, mas a intimidade, essa, segue sendo profundamente humana.

Talvez o maior gesto de cuidado que possamos oferecer hoje seja algo simples: estar, de fato, ali inteiro, presente, disponível quando alguém decide nos compartilhar sua vida para além das notificações. Pense nisso, pratique o contato e perceba o valor que isso tem!

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Posted by Rodrigo Santana Psicólogo
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Psicólogo, mestre em Saúde Pública e doutorando em Governança e Transformação Digital
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