Uma das premissas freirianas de que mais gosto é a que diz que a leitura de mundo antecede a leitura da palavra. E hoje, ao ver um post no Instagram, isso me veio à mente com uma clareza surpreendente. No post, questionava-se inicialmente se Capitu de fato havia traído Bentinho. Eu estava com um grupo de jovens e antes de deixar rolar o carrossel com as demais informações, perguntei o que achavam. Para meu espanto, alguns nem sabiam do que se tratava ou logo diziam que não haviam lido o livro. À revelia desses casos, as demais opiniões se dividiram. Segui então a leitura das informações no restante do carrossel de mensagens que desvelou para o grupo que a resposta estaria na primeira página do livro.
O genial Machado de Assis trazia o relato do próprio Bentinho em que citava inspirações que encontrou em quatro bustos de sua casa: Nero, Augusto, Massinissa e César, cujas histórias contam o pouco valor que davam às suas mulheres que serviram de bode expiatório para resolver questões políticas ou emocionais destes homens. Ao se igualar a eles, o narrador-personagem nos indica o caminho para uma análise mais profunda da obra. Pois bem! Não estou aqui para fazer um arrazoado sobre literatura brasileira, mas para lembrar que as diversas camadas de leitura passam, sem sombra de dúvida, por nossas outras tantas leituras das palavras que constroem nossa leitura de mundo.
Interpretação
Dito de outra forma, podemos afirmar que, se não conhecemos a história das personas que serviram de inspiração ao nosso narrador-personagem, somos incapazes de compreender e de interpretar corretamente o que lemos. Mais grave talvez seja passar por essa leitura, não entender o que faz destes bustos inspirações e seguir na leitura sem nos apercebermos de sua importância na configuração da narrativa.
Dinamicidade digital
Essa leitura superficial a que estamos nos habituando, em função da dinamicidade do mundo digital, tem impossibilitado, especialmente a nossas crianças e jovens, buscarem nas profundezas do texto suas premissas, suas entrelinhas, suas mensagens subliminares. São muitos os estudos que têm demonstrado a importância de se escrever e não apenas digitar ou de ler livros e não apenas telas.
Intertextualidade
Não há, dessa forma, como desconsiderar a importância de se manter o foco; de se propiciar a leitura diversificada de gêneros textuais em diferentes canais de propagação; de dar oportunidades de discussão em que se aprofundem ideias e conceitos ou de ampliar horizontes para além do próprio texto de maneira a sair das caixinhas óbvias do pensamento linear para a complexidade da teia de sentidos que conformam um texto e suas intertextualidades. Essa capacidade de ler as palavras a partir de uma vasta leitura de mundo só é possível mediante o exercício da compreensão e da interpretação aprofundada que dá ao leitor a experiência de ser coautor, compartilhando com o outro o que ele dividiu conosco por meio da escrita. E é nesse contexto, portanto, que precisamos retroceder aos livros, ouvir o passar de suas páginas e sentir o prazer de descobrir ali todo um universo cheio de aprendizagens e simbolismos.



