O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) determinou a convocação do embaixador do Brasil na Argentina, Júlio Bitelli, para consultas em Brasília, um dia após ser alvo de ofensas do presidente argentino, Javier Milei, durante um evento político realizado em São Paulo. A medida representa um forte gesto diplomático de insatisfação diante da deterioração das relações entre os dois países.
Além da convocação de Bitelli, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, chamou o embaixador da Argentina no Brasil, Guillermo Daniel Raimondi, para prestar esclarecimentos sobre as declarações de Milei.
Lula reage às declarações de Milei
Segundo informações apuradas pelo Correio Braziliense, Lula ficou irritado e ofendido com os ataques feitos pelo presidente argentino. Bitelli desembarca em Brasília nesta segunda-feira (27) para se reunir com Mauro Vieira, quando serão avaliadas possíveis medidas diplomáticas em resposta ao episódio.
Durante a convenção nacional do PL, realizada no sábado (26), em São Paulo, Javier Milei participou do evento ao lado do senador Flávio Bolsonaro e fez uma série de críticas ao governo brasileiro. Em seu discurso, chamou Lula de “presidiário” e “ladrão”, afirmou que o Brasil vive sob “submissão ao esquerdista” e pediu mudanças políticas no país.
O presidente argentino também atacou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, a quem chamou de “lixo calvo”, além de acusar, sem apresentar provas, o governo brasileiro de prender opositores e conduzir o país a uma crise fiscal.
Governo brasileiro adota medidas diplomáticas
De acordo com interlocutores da diplomacia brasileira, Milei ofendeu instituições brasileiras, a democracia e o povo do país, agravando um dos momentos de maior tensão recente entre Brasil e Argentina, parceiros no Mercosul.
Após retornar a Buenos Aires, Milei voltou a fazer acusações contra o governo brasileiro. Em entrevista à rádio Mitre, afirmou, sem apresentar evidências, que o Brasil teria financiado uma suposta campanha contra a Argentina. O presidente argentino também incluiu o México e o Partido Democrata dos Estados Unidos entre os responsáveis pela alegada ação.
Ainda na entrevista, Milei criticou a decisão da Justiça brasileira que impediu sua visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar, e voltou a acusar o governo Lula de interferir na política argentina durante as eleições presidenciais do país vizinho.
Reações no Judiciário e na política
As declarações provocaram reações de autoridades brasileiras. O presidente do STF, Edson Fachin, divulgou nota de repúdio às falas de Milei. Também se manifestaram o ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães (PT), e o presidente nacional do PT, Edinho Silva, que classificou as acusações como “inadmissíveis”.
Na esfera política, o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) apresentou representação à Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o senador Flávio Bolsonaro. O parlamentar questiona a participação de um chefe de Estado estrangeiro em um ato político no Brasil e também aponta suposto uso de inteligência artificial durante o evento.
Crise ocorre em meio a tensão internacional
A crise diplomática ocorre em um momento de intensa movimentação internacional do governo brasileiro. Paralelamente ao embate com a Argentina, Lula também ampliou as críticas às medidas comerciais anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicando um artigo no jornal The Washington Post em defesa da posição do Brasil sobre o novo pacote tarifário.


