Levantamentos recentes indicam que as bets custam R$ 38,8 bilhões anuais à sociedade brasileira – valor que poderia, por exemplo, ampliar em 26% o orçamento do programa Minha Casa, Minha Vida.
Em seis meses, o país registrou 17,7 milhões de apostadores, sendo 12,8 milhões em situação de risco, segundo a Unifesp. O perfil predominante é de homens com até 44 anos e renda de até dois salários-mínimos, mas os mais endividados são mulheres jovens e pobres: quatro em cada dez apostadores contraíram dívidas após começarem a jogar.
Danos à saúde
Os danos à saúde geram custo adicional de pelo menos R$ 30,6 bilhões por ano, incluindo R$ 17 bi em mortes por suicídio associadas ao jogo e R$ 10,4 bi por perda de qualidade de vida com depressão. O país tem 1,4 milhão de pessoas em nível grave de dependência, comparável à dependência química, mas o Estado repassa apenas 1% da arrecadação sobre as bets para o Ministério da Saúde – enquanto o Reino Unido destina 50% do imposto do setor à saúde pública.
Para agravar, a tributação no Brasil é de básicos 12% sobre o faturamento das empresas – GGR – Gross Gaming Revenue, sigla em inglês (além dos 12% sobre a Receita Bruta de Jogos (GGR), as empresas de bets no Brasil arcam com uma carga adicional de 9,25% de PIS/Cofins, até 5% de ISS sobre a receita bruta – que serão alterados com a reforma tributária). Enquanto isso, o Reino Unido taxa em 21%, a França em 33% e Nova York chega a 51%. Mesmo a Itália, quarto maior mercado, aplica alíquotas acima de 24%. Uma proposta para elevar a taxa brasileira, a módicos/ridículos 18%, foi recentemente derrubada pelo Congresso. E todos nós, cidadãos, pagamos muito mais de imposto em vários outros produtos:
- Saúde e Educação: planos de saúde têm PIS/Cofins de 14,25%; medicamentos podem ter carga total acima de 30%; materiais escolares e livros, essenciais, chegam a ter uma carga total de até 34%.
- Essenciais: um botijão de gás pode ter carga total de até 25%; e até mesmo na conta de luz, a tributação média é de 25% a 30%.
- Lazer e consumo: seu celular pode ter uma carga tributária de até 40%; um carro 1.0 popular tem carga total de cerca de 35%; e o seu churrasco de fim de semana? A carne tem alíquota zero dos impostos federais, mas o ICMS (um tributo estadual) sozinho chega a 18% em São Paulo.
Mas jogo é vício… vamos comparar com a nossa cervejinha? Uma simples lata tem uma carga tributária de cerca de 56%.
O crime organizado e as bets
O cenário se agrava com a ação do crime organizado. Auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) divulgada em maio de 2026 revelou que 40% das plataformas de apostas operam irregularmente, mesmo após as novas regras.
Cerca de 51% das apostas apresentam sinais de ilegalidade, movimentando R$ 40 bilhões por ano sob risco de fraudes e manipulação de resultados. Jogos como o “Tigrinho” são usados em sites ilegais com algoritmos manipulados, reduzindo drasticamente as chances de vitória e expondo usuários a golpes financeiros e roubo de dados. O TCU identificou ainda que esses sites criam novos endereços na internet logo após serem bloqueados, tornando o controle estatal praticamente ineficaz.
Apesar do faturamento bilionário – R$ 240 bilhões destinados pelas famílias brasileiras em 2024 e lucro de R$ 17,4 bilhões só no primeiro semestre de 2025 –, o setor gerou apenas 1.144 empregos formais no país, com 84% dos trabalhadores sem contribuição previdenciária. A arrecadação estatal até setembro de 2025 foi de R$ 608 bilhões, insuficiente para cobrir os R$ 38,8 bilhões em danos sociais/saúde anuais.



