Hoje me deparei com um texto antigo que havia guardado e, sinceramente, do qual havia me esquecido. É um texto de autor desconhecido, mas que gera em mim, a cada vez que o leio, uma série de reflexões. Resumidamente, a história trata de um jardineiro que foi contratado e, ao finalizar seu trabalho, pede o telefone emprestado para fazer uma ligação. A senhora que o contratou, empresta o telefone e fica ao lado, ouvindo curiosamente a conversa. Ele faz uma ligação oferecendo seus serviços e a cada não que recebe, argumenta sobre suas qualidades e seu interlocutor sempre responde que já tem um jardineiro com aquelas qualidades, dispensando-o sumariamente. A senhora que ouvia a conversa, brincou então: “Perdeu um novo cliente!”, ao que ele respondeu “Claro que não. Eu sou o jardineiro dela. Fiz isto apenas para medir o quanto ela estava satisfeita comigo.”
Humildade e generosidade
Fiquei a imaginar quanta sabedoria traz essa atitude do jardineiro que se dispõe a ser avaliado sem medo, exercitando dois valores que hoje estão quase fora de moda: a humildade e a generosidade. A humildade vem por meio da abertura em ouvir o que pensam a respeito de seu trabalho sem restrições, numa disposição ímpar de aprender a partir da escuta das demandas e necessidades daquele a quem ele serve com seus saberes de jardinagem. Essa postura, sem dúvida, o coloca numa postura socrática de quem sabe que o mundo está cheio de ensinamentos e que pode sempre aprender e melhorar, seja como Pessoa ou como profissional no pleno exercício daquilo que consideramos nosso domínio. Demonstra ainda uma capacidade imensa de colocar-se diante de um não-saber e de uma intencionalidade explícita de aprender.
Autoconhecimento e autogestão das emoções
No exercício do segundo valor, qual seja a generosidade, o jardineiro se dispõe a dar o melhor de si na perspectiva do outro. A escuta ativa do que o outro percebe sobre ele pode não corresponder necessariamente a sua própria percepção da realidade e da qualidade de suas entregas em seu fazer cotidiano. Por que então abrir-se a essa fala? A generosidade aqui se faz presente na predisposição de receber informações que podem ser incômodas, que podem tirá-lo da zona de conforto… Nesse sentido, estabelece novo pacto relacional em que a opinião do outro tem lugar e relevância, tanto quanto suas próprias crenças e percepções. Essa generosidade é fruto, portanto, de um processo de autoconhecimento e de autogestão das próprias emoções que o coloca em um espaço de equilíbrio e de abertura ao diálogo. Ser generoso, nesse caso, também remete ao cuidado consigo e com o outro.
Tanto a humildade para aprender quanto a generosidade da escuta deveriam ser pautas constantes na educação de nossas crianças, jovens e adultos. Em um mundo em que todos querem ter razão e o argumento se torna fonte de competição e violência verbal, aprender com o outro é sinal de maturidade e de inteligência emocional. Somos todos chamados a esse exercício contínuo de ação, reflexão, ação que se consubstancia sempre em fortes aprendizagens.




