A editora-chefe do Jornal Capital Federal, Giza Soares, anunciou sua pré-candidatura a deputada distrital pelo Mobiliza e pretende levar ao centro do debate político pautas como inclusão de pessoas com deficiência, apoio às mães atípicas e proteção de mulheres em situação de vulnerabilidade. A movimentação insere seu nome no cenário eleitoral do DF com foco em políticas públicas voltadas a grupos historicamente sub-representados.
Mulher negra, atípica, autista e PCD, Giza Soares fundamenta sua atuação na própria vivência. Segundo ela, a decisão de entrar na política surge da percepção de que essas pautas, embora existentes, ainda não recebem a prioridade necessária nas políticas públicas. “Eu fui invisível por muito tempo. Só quem vive sabe o que é passar por isso”, afirma.
Diferente de grande parte dos candidatos que abordam a pauta da inclusão a partir da observação, Giza destaca que sua atuação parte da experiência direta. “Muitos imaginam essa realidade. Eu não imagino, eu sinto. Eu vivo. E sei o que é estar fora das estatísticas e das decisões que constroem as políticas públicas”, pontua.
A transição do jornalismo para a política, segundo a pré-candidata, não representa ruptura, mas continuidade de propósito. Ao longo da carreira, acompanhou iniciativas voltadas à inclusão, mas avalia que ainda há lacunas estruturais. Para ela, ações pontuais não são suficientes diante da complexidade enfrentada por famílias atípicas e pessoas com deficiência.
Vivência que orienta
O diagnóstico de autismo veio aos 50 anos, após situações difíceis, marcadas pela falta de compreensão sobre suas próprias reações. “O autismo de nível de suporte I e II não tem aparência. É uma forma diferente de sentir, agir e reagir. Muitas pessoas atípicas aprendem a se mascarar para parecer ‘normais’ e serem aceitas pela sociedade. Eu mesma passei décadas vivendo essa angústia”, relata.
A descoberta trouxe liberdade e autoconhecimento, mas também evidenciou a necessidade de políticas públicas mais específicas.
Esse contexto, segundo Giza, amplia a vulnerabilidade de mulheres autistas, especialmente em situações de violência. Dados baseados em levantamentos recentes, como o Atlas da Violência 2024 e pesquisas do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), indicam que mulheres com deficiência no Brasil enfrentam vulnerabilidade extrema e estão em risco muito maior de sofrer abusos físicos, sexuais e psicológicos. Elas também representam a maioria das vítimas de violência doméstica, com 65,4% dos registros, e têm risco até quatro vezes maior de sofrer violência.
Para ela, o enfrentamento do problema exige mais do que campanhas de conscientização, demanda ações efetivas, com dados atualizados e políticas contínuas. “Não é sobre sensibilizar. É sobre agir”, resume.
Paralelamente, a pré-candidata tem investido no desenvolvimento de agentes de inteligência artificial voltados ao apoio de mulheres em situação de vulnerabilidade, mães atípicas e pessoas com deficiência, em parceria com a Arys.IA. Entre as iniciativas, estão o Dona, voltado ao acolhimento de mulheres vítimas de abuso, o Mati, que oferece suporte emocional e informações práticas sobre o transtorno para mães atípicas, e o Voz Inclusiva, direcionado ao fortalecimento e orientação de pessoas com deficiência. O projeto Mati, inclusive, recebeu reconhecimento institucional, com apoio do Sebrae, e busca integrar tecnologia e impacto social na construção de políticas mais acessíveis.
Posicionamento e cenário
Ao entrar na disputa, Giza afirma estar preparada para o ambiente político, com acompanhamento profissional e clareza sobre suas convicções. “Independentemente das minhas dificuldades, sempre fui corajosa. Eu posso até ter medo, mas eu enfrento”, diz.
A escolha pelo Mobiliza, segundo ela, foi motivada pelo acolhimento do partido. Ainda assim, reconhece que vem sendo procurada por outras siglas, o que indica movimentações nos bastidores do cenário eleitoral para 2026.
Com uma trajetória marcada por desafios, incluindo a infância em situação de rua na capital federal, Giza constrói uma candidatura ancorada na experiência pessoal e no discurso de representatividade. “Não estou entrando na política por poder. Inclusão não é favor, é direito. E eu estou pronta para essa luta.”




