Mia Couto em um de seus textos nos brinda com a seguinte reflexão “Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão. Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitamos tão pouco.”. Essa frase de uma simplicidade tão flagrante traz múltiplas camadas e possibilidades de análises. Temos ao nosso dispor inúmeros recursos se quiséssemos de fato dividir nossos espaços com o outro e talvez até pensemos que já fazemos isso e que já trilhamos estas tais estradas que possibilitam a comunhão com o outro. Olhando por outra ótica, no entanto, estamos longe de alcançar essa interação e deparamos cotidianamente com relatos de uma massa de solitários.
Em uma pesquisa da ONG Family Talks realizada recentemente, em março de 2026, quatro em cada dez brasileiros, dizem se sentir solitários, especialmente as mulheres, os jovens e a população de baixa renda. Dentre os fatores elencados para explicar o problema, percebe-se uma estreita relação entre quem se sente solitário e quem acessa constantemente as redes sociais. Outras pesquisas mostram depoimentos de pessoas que, ao acompanharem outros perfis, estabelecem comparações com a sua própria vida e nem sempre conseguem administrar a disparidade entre a realidade virtual e a sua própria vida. Como diziam nossas sábias avós, o jardim do vizinho sempre nos parece mais verde.
Ditadura de comportamentos
Há uma narrativa falsa de perfeição e de felicidade plena que cria uma ilusão sobre a vida a ser desejada por todos nós, mas que, por algum motivo, não alcançamos. A crença de que aqueles fragmentos de felicidade retratam toda uma história de vida tem dado voz a uma ditadura de comportamentos, desejos e demandas que não condizem com a realidade da maior parte dos brasileiros. A despeito de se compreender teoricamente essa questão, muitas pessoas se sentem afetadas pela sensação de que não são amadas, não são suficientes ou não estão fazendo o suficiente, o que gera impactos negativos em sua autoestima e saúde mental/emocional.
Solidão: um problema global de saúde pública
Outra questão a ser levada em conta é que muitas das relações que têm se estabelecido são superficiais e frágeis, em que não há uma escuta interessada e autêntica. Segundo a OMS (2025), a solidão foi considerada um dos problemas prioritários globais, posto que, como seres sociáveis que somos, necessitamos de conexões sociais de alta qualidade de maneira a garantir o bem-estar, além da saúde mental e física. O isolamento social e a solidão são determinantes sociais relevantes que têm sido negligenciados. Trata-se de um problema de saúde pública tanto por atingir o indivíduo em sua essência, como também coletivamente em função dos custos para a sociedade em termos de educação, saúde e emprego.
À luz desses fatos, precisamos rever como se estabelecem as relações familiares em nossas casas, como se dão as relações nos ambientes escolares e em outros espaços de convívio. Nossas crianças e jovens precisam reaprender a se conectar, mas essa tarefa precisa se iniciar por nós ao demonstrarmos a eles como reconstruir laços e estabelecer vínculos verdadeiros com quem dividimos nossas histórias no mundo. Talvez essa seja uma resposta inclusive para tantas violências que temos enfrentado nos últimos tempos, normalizando barbáries que, até pouco tempo atrás, eram inaceitáveis.



