Uma das cenas mais marcantes do cinema dos anos 1990 ajuda a ilustrar um fenômeno que hoje domina conversas, análises e desabafos nas redes sociais. Em Ghost: Do Outro Lado da Vida, sucesso que arrecadou mais de US$ 505 milhões nos Estados Unidos, Molly vê o namorado Sam ser assassinado diante de seus olhos. A ausência repentina do personagem, transformado em “fantasma”, tornou-se metáfora perfeita para uma prática atual: o ghosting, o sumiço abrupto de alguém sem qualquer explicação.
O que antes pertencia ao drama fictício virou parte da vida cotidiana. E, diferentemente do cinema, não há trilha sonora nem efeitos especiais para amenizar o impacto. Quando alguém desaparece, o corpo e a mente registram a perda como uma ruptura real.
Quando o outro some, o corpo responde
Estudos da consultoria Delta Psychology indicam que 72% das pessoas já sofreram ghosting. A quebra repentina de vínculo ativa áreas cerebrais associadas à dor física. É por isso que muitos relatam aperto no peito, queda de energia, insônia ou desânimo após o sumiço: o organismo interpreta a ausência brusca como ferida direta.
Em Ghost, Molly abandona seus trabalhos em cerâmica após perder Sam. Na vida real, a reação não é muito diferente. Mudanças de energia, apatia e paralisação emocional são comuns quando alguém vivencia uma perda sem aviso.
As raízes profundas do sumiço: o “objeto evanescente”
Segundo o psicanalista Renan Cola, o ghosting tem relação direta com um conceito da psicologia profunda: o objeto evanescente. Ele representa um tipo de amor ou presença que desapareceu de forma súbita na infância — por morte, separação, divórcio traumático ou até pela perda de um irmão ainda na gestação.
Quando a criança experimenta uma ausência inesperada, seu psiquismo pode se organizar ao redor dessa ferida. Na vida adulta, o padrão se repete:
– alguns se veem em relações que desmoronam sempre da mesma forma;
– outros perdem empregos de repente;
– há quem simplesmente desapareça para evitar reviver a dor antiga.
O lado invisível do “ghosteador”
Embora o ghosting machuque quem é deixado para trás, quem desaparece também carrega suas próprias dores. Cola explica que o ghosteador não age, necessariamente, por frieza ou egoísmo. Frequentemente, ele tenta se proteger de emoções que não sabe manejar.
Sumir pode ser uma tentativa inconsciente de controlar uma ferida que um dia escapou de suas mãos. É como se, ao desaparecer, ele reencenasse uma perda antiga — só que, desta vez, com a falsa sensação de que está no comando.
Casos que revelam a dimensão do problema
A atriz Mariana Xavier viveu um episódio típico da cultura atual. Após marcar um encontro, deixou tudo combinado com o pretendente – até que, na véspera, o rapaz simplesmente parou de responder. O caso viralizou porque a história não é exceção, mas regra para muitos.
Nos consultórios, relatos semelhantes se acumulam. Renan Cola cita o caso de Renato, separado do irmão logo após nascer. Na vida adulta, todas as suas relações terminavam da mesma forma: avançavam com naturalidade e, de repente, se desfaziam como se algo invisível sempre se repetisse.
O preço emocional do silêncio
A falta de explicação, segundo Cola, não apenas fere quem recebe o ghosting, mas empobrece emocionalmente quem o pratica. Relações ficam rasas, culpas se acumulam e vínculos deixam de amadurecer. O silêncio, que parece solução fácil para evitar conversas difíceis, retorna como fantasma.
O psicanalista deixa um alerta: ninguém desaparece impunemente. Mais cedo ou mais tarde, a psique cobra a conta daquilo que se evitou esclarecer.
Em Ghost, Sam retorna para se despedir, fechar ciclos e permitir que Molly siga em frente. Nas relações reais, a ausência não ganha forma de espírito, mas costuma reaparecer como ansiedade, medo, repetições ou mensagens enviadas tarde demais.
Antes de sumir, pense no impacto que esse gesto pode causar.
Sobre o autor
Renan Cola é psicanalista, formado em Psicanálise pelo IBCP Psicanálise — a maior escola de psicologia profunda do país — e já atendeu mais de 10 mil pacientes na última década. Com mais de 20 anos dedicados à clínica, escreve regularmente sobre comportamento humano e saúde emocional para veículos de ampla circulação, como CBN, Psique, Mistérios da Mente, Estado de Minas, O Tempo, Hoje em Dia, Diário do Nordeste, Administradores e Empresas & Negócios.
Renan Cola Psicanalista
(27) 99582-2535



