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Teste identifica autismo com análise dos olhos em 15 minutos; entenda ressalvas da técnica em uso nos EUA 

Exame aprovado nos EUA avalia contato ocular em crianças pequenas; médicos brasileiros ressaltam que diagnóstico do TEA é complexo e não pode depender de um único marcador

Danieli Aguiar
Por Danieli Aguiar 4 Min Leitura
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Exame pode ser feito em bebês de 14 a 30 meses nos Estados Unidos Imagem: Reprodução/ Fantástico
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Um novo método aprovado nos Estados Unidos promete identificar sinais do Transtorno do Espectro Autista (TEA) em apenas 15 minutos por meio da análise do olhar de crianças. A tecnologia, em uso desde agosto de 2023, monitora os olhos enquanto os pequenos assistem a vídeos. Apesar do entusiasmo, especialistas brasileiros alertam para riscos de reduzir um diagnóstico tão complexo a um único biomarcador.

A pesquisa é liderada pelo brasileiro Ami Klin, diretor de um dos principais centros de tratamento de autismo em Atlanta. O exame é aplicado em crianças entre 1 ano e 4 meses e 2 anos e meio. No Brasil, ainda não há previsão para uso da técnica, que depende de aprovação dos órgãos regulatórios nacionais.

Diagnóstico clínico ainda é padrão

O autismo tem origem genética e envolve déficits na comunicação e na interação social. Atualmente, o diagnóstico é clínico e pode ser feito a partir dos 18 meses, com maior confiabilidade após os três anos. Ele inclui avaliação médica direta, aplicação de testes padronizados e relatos de pais ou cuidadores.

Para o psiquiatra infantil e professor da USP Guilherme Polanczyk, a ideia de um único marcador não reflete a complexidade do TEA. Ele explica que o contato ocular reduzido é frequente em crianças autistas, mas não se manifesta da mesma forma em todos os casos. “O autismo é heterogêneo. Algumas crianças sempre tiveram contato ocular, outras perderam com o tempo e outras nunca o desenvolveram”, afirma.

Riscos de uso isolado

Polanczyk alerta que o exame foi testado em uma amostra específica e precisa de validação em diferentes populações, incluindo crianças com TDAH ou dificuldades sensoriais. Para ele, uma disseminação rápida da técnica sem profissionais treinados e intervenções adequadas pode gerar danos. “A comunidade médica não espera um único marcador para diagnosticar algo tão complexo”, reforça.

Além disso, ele destaca que biomarcadores genéticos e ferramentas de inteligência artificial podem trazer contribuições mais consistentes no futuro.

O papel das famílias e o tratamento

O neuropediatra Carlos Gadia ressalta a importância de identificar sinais precocemente. Entre os sinais de alerta estão ausência de resposta ao nome, falta de sorriso, regressão de habilidades e dificuldades de comunicação a partir dos 3 anos.

O tratamento do TEA envolve intervenções comportamentais e fonoaudiológicas, com forte participação da família. “Não existe prazo de validade para o desenvolvimento. Nada acontece sem os pais envolvidos ativamente”, afirma Gadia.

Cenário no Brasil

O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento a pessoas com TEA por meio da Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência, que conta com 577 unidades em todo o país. Dados do IBGE indicam que 2,4 milhões de brasileiros foram diagnosticados com autismo, o equivalente a pouco mais de 1% da população. Nos Estados Unidos, estima-se que uma em cada 31 crianças viva com o transtorno.

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