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Coca‑Cola adoçada com cana? Brasil fica no centro da tensão entre Trump e tarifas agrícolas

Proposta de Trump de substituir o xarope de milho por açúcar de cana na Coca‑Cola dos EUA expõe a influência da cana‑brasileira e a possível interferência das tarifas de 50% sobre o açúcar com origem no Brasil

Flávia Marinho
Por Flávia Marinho 4 Min Leitura
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Plantação de cana-de-açúcar em São Paulo: Brasil é o maior exportador global do produto e pode se beneficiar da mudança nos EUA Imagem: Reprodução
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Donald Trump voltou a usar a Coca-Cola como palco político. Desta vez, o ex-presidente dos Estados Unidos afirmou que a empresa vai substituir o xarope de milho por açúcar de cana em seus refrigerantes vendidos no mercado americano. A declaração ganhou repercussão com o slogan “Make Coca Sweet Again”, mas a proposta tem implicações que vão muito além do marketing: se a mudança for adotada, ela exigirá importações e colocaria o Brasil, maior produtor mundial de cana-de-açúcar, no centro da equação.

Atualmente, a Coca-Cola americana usa o xarope de milho rico em frutose (HFCS) como adoçante principal. Mais barato e amplamente produzido nos Estados Unidos, o HFCS sustenta parte significativa da economia agrícola americana, especialmente no Cinturão do Milho. Já o açúcar de cana, embora seja visto como mais “natural” por parte dos consumidores, é mais caro e, nos EUA, depende de importações principalmente do Brasil.

Contradição tarifária

Apesar da declaração pró-açúcar de cana, Trump impôs uma tarifa de 50% sobre o açúcar brasileiro ainda durante seu mandato, medida que segue em vigor. O Brasil tem uma cota anual para exportar até 146 mil toneladas do produto sem essa taxa, mas o volume representa apenas uma fração da capacidade nacional de produção. Se os EUA decidirem ampliar o uso de cana na indústria de refrigerantes, a dependência de importações cresceria, e com isso também os custos para empresas como a Coca-Cola.

De acordo com especialistas do setor ouvidos pelo G1, substituir o xarope de milho por açúcar de cana elevaria significativamente o custo final da bebida. O impacto seria direto na cadeia produtiva: de um lado, produtores de milho americanos perderiam espaço; de outro, exportadores de açúcar, como o Brasil, poderiam lucrar desde que consigam superar as barreiras tarifárias.

Brasil no centro da disputa

Líder global em produção e exportação de açúcar, o Brasil fornece o produto a mais de 100 países, sendo os principais mercados China, Indonésia, Índia e Oriente Médio. Embora os EUA não estejam entre os maiores compradores, qualquer ampliação na demanda americana pode mexer com o equilíbrio do mercado internacional e reforçar a posição estratégica da cana brasileira.

O momento da declaração de Trump coincide com o avanço de discussões no governo Lula sobre a taxação de exportações do agronegócio, medida que pode afetar diretamente setores como o do açúcar e do etanol. Se por um lado há oportunidade de ampliar as vendas externas com a eventual mudança da Coca-Cola, por outro o cenário interno impõe incertezas para o produtor brasileiro.

Sabor, saúde e geopolítica

O debate também reacende questões sobre saúde e consumo. O xarope de milho é frequentemente associado a dietas hipercalóricas e à obesidade, o que alimenta o desejo de parte dos consumidores americanos por versões adoçadas com açúcar de cana, como a “Mexican Coke”, vendida em garrafas de vidro. A fala de Trump, portanto, apela a um público que busca tanto nostalgia quanto a ideia de um produto “mais autêntico”.

Mas na prática, a substituição depende de fatores econômicos e políticos complexos. Mesmo com a pressão de consumidores, a decisão envolve custos, relações comerciais e prioridades agrícolas. O Brasil, mais uma vez, aparece como peça-chave  mas pode ver a oportunidade escorrer se não houver uma política externa e fiscal coerente.

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