BRB e contas públicas desafiam Celina Leão no início do novo mandato no DF

Governadora terá de enfrentar a crise financeira do Banco de Brasília, que busca R$ 6,6 bilhões para recompor o patrimônio, e equilibrar as contas do Distrito Federal após meses de medidas de contenção de despesas

Paulo Cesar Sampaio
Por Paulo Cesar Sampaio 8 Min Leitura
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Celina Leão afirma que não participou das negociações envolvendo os dois bancos e que era contrária à operaçãoImagem: Gustavo Moreno/STF
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Reeleita para governar o Distrito Federal por mais quatro anos, Celina Leão (PP) terá dois grandes desafios na área econômica no início do novo mandato: solucionar a crise do Banco de Brasília (BRB) e recuperar o equilíbrio das contas públicas. Os problemas estão diretamente relacionados, já que o governo local, controlador do banco, poderá ter de assumir compromissos financeiros para viabilizar a recuperação da instituição.

A crise do BRB ganhou força após operações malsucedidas envolvendo o Banco Master. Em março de 2025, a instituição pública anunciou a intenção de comprar parte do banco privado, em uma negociação que previa a aquisição de 49% das ações ordinárias e 100% das ações preferenciais. A operação foi autorizada pela Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), mas acabou se tornando um dos principais problemas financeiros e políticos enfrentados pelo governo.

No fim de outubro, a Polícia Federal indiciou 15 pessoas suspeitas de participação em irregularidades relacionadas ao caso, entre elas Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, e outros ex-diretores da instituição.

Como acionista controlador, o Governo do Distrito Federal (GDF) tem a responsabilidade de garantir que o BRB cumpra as exigências do sistema financeiro e mantenha níveis adequados de capital. A principal dificuldade atualmente é recompor os recursos perdidos nas operações com o Banco Master e restabelecer os indicadores exigidos pelo Banco Central.

Celina Leão afirma que não participou das negociações envolvendo os dois bancos e que era contrária à operação. Desde que assumiu o governo, em março, passou a defender medidas para recuperar a instituição e declarou ter assumido o problema.

Empréstimo bilionário e divulgação do balanço

Uma das principais medidas em discussão é a obtenção de um empréstimo de até R$ 6,6 bilhões para reforçar o patrimônio do BRB. O banco estima que pelo menos R$ 8,8 bilhões em créditos adquiridos sejam inexistentes, tenham sido fraudados ou apresentem dificuldades de recuperação.

O GDF recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar viabilizar a operação com o Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Até o momento, porém, os recursos não foram liberados. O governo federal também informou que não pode oferecer garantias para o empréstimo, enquanto a gestão local busca alternativas, incluindo negociações com bancos árabes.

Outro ponto de atenção é a divulgação do balanço financeiro do BRB, que não é publicado desde novembro de 2025. Após a vitória eleitoral, Celina negou que a divulgação estivesse condicionada ao resultado das eleições e afirmou que a publicação está relacionada à construção do empréstimo necessário para a recuperação do banco.

Planos para o futuro do BRB

O plano de governo de Celina prevê ações para recuperar a solidez financeira do banco, ampliar a transparência e fortalecer os controles internos, além de preservar o patrimônio público.

Entre as propostas estão a modernização dos serviços digitais, a ampliação do microcrédito para pequenos empreendedores, a facilitação do acesso de empresas ao financiamento e o apoio a startups e projetos de inovação.

O documento também prevê o fortalecimento do crédito imobiliário e consignado para servidores do DF, iniciativas de educação financeira e medidas para ampliar a participação do BRB no financiamento de infraestrutura e projetos que gerem emprego e renda.

Contas públicas também preocupam

Além da situação do BRB, Celina terá de lidar com o desequilíbrio das contas públicas do Distrito Federal. Desde que assumiu o governo, a gestora anunciou cortes de gastos, revisão de contratos e medidas para conter despesas. Na ocasião, afirmou ter encontrado um rombo bilionário nas finanças locais.

Em maio, durante uma reunião com deputados distritais, a governadora voltou a mencionar a situação financeira e afirmou que seria necessário reduzir gastos com contratos, aluguéis e veículos utilizados pelo governo.

No mesmo mês, o secretário de Economia, Valdivino José de Oliveira, apresentou à CLDF dados que apontavam déficit orçamentário de R$ 1,9 bilhão entre janeiro e abril de 2026. No período, o DF arrecadou R$ 13,4 bilhões, enquanto as despesas empenhadas chegaram a R$ 15,3 bilhões.

Apesar do resultado negativo, o secretário projetou inicialmente um superávit de R$ 2 bilhões para o encerramento do ano.

Em agosto, durante a apresentação do balanço do primeiro semestre, Celina afirmou que havia assumido o governo com um rombo próximo de R$ 5 bilhões. Já o secretário detalhou um desequilíbrio de aproximadamente R$ 5,4 bilhões, considerando o déficit registrado e despesas contratadas que não estavam formalmente previstas no orçamento.

Um dos exemplos apresentados foi o transporte público, que tinha previsão de subsídio anual de R$ 2,2 bilhões, mas contava com apenas R$ 1,1 bilhão no orçamento. Segundo o secretário, também havia diferenças entre despesas programadas e recursos disponíveis nas áreas de saúde, educação e limpeza urbana.

A gestão atribuiu a melhora das projeções fiscais a medidas de controle e centralização dos gastos, além do aumento da arrecadação. Em agosto, a estimativa de superávit para 2026 passou de R$ 2 bilhões para R$ 3 bilhões, com a possibilidade de alcançar R$ 5 bilhões.

Orçamento de 2027 prevê R$ 49,7 bilhões

Em setembro, o GDF encaminhou à CLDF o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027, com previsão de R$ 49,797 bilhões em receitas e despesas do orçamento próprio do Distrito Federal.

A proposta foi elaborada sem previsão de déficit e estabeleceu limites para os gastos, com o objetivo de adequar as despesas à arrecadação estimada e à capacidade financeira do governo.

Entre os valores destinados às principais áreas estão R$ 9,3 bilhões para educação, R$ 8,01 bilhões para saúde, R$ 2,81 bilhões para urbanismo, R$ 2,48 bilhões para transporte, R$ 1,82 bilhão para segurança e R$ 1,26 bilhão para assistência social.

Além do orçamento próprio, o planejamento considera R$ 30,32 bilhões do Fundo Constitucional do Distrito Federal (FCDF), elevando a previsão total de recursos para aproximadamente R$ 80,12 bilhões em 2027.

A governadora também alertou que uma eventual mudança no cálculo do Fundo Constitucional poderia retirar R$ 1,8 bilhão do orçamento local no próximo ano.

Apesar das medidas anunciadas, o plano de governo não apresenta metas fiscais específicas, indicadores ou prazos para a recuperação das contas públicas. A proposta estabelece diretrizes como modernização da administração tributária, fortalecimento dos mecanismos de transparência e controle interno e melhoria da qualidade dos gastos.

Diante desse cenário, a próxima gestão terá de conciliar a recuperação financeira do BRB com o controle das despesas públicas. O desafio será encontrar recursos para fortalecer o banco sem comprometer a capacidade do Distrito Federal de manter investimentos e serviços essenciais à população.

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