Lula e Flávio Bolsonaro mudam de posição sobre programas sociais, segurança e trabalho

Presidenciáveis apresentam diferenças entre declarações antigas e propostas defendidas na campanha de 2026

Paulo Cesar Sampaio
Por Paulo Cesar Sampaio 9 Min Leitura
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Entre os principais exemplos estão a mudança de Flávio em relação ao Bolsa Família e ao fim da escala de trabalho 6x1Imagem: Reprodução
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Os candidatos à Presidência da República Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) mudaram de posição sobre temas como programas sociais, segurança pública, jornada de trabalho e tributação de compras internacionais. As diferenças aparecem na comparação entre declarações antigas, decisões de governo e propostas apresentadas durante a campanha eleitoral de 2026.

Entre os principais exemplos estão a mudança de Flávio em relação ao Bolsa Família e ao fim da escala de trabalho 6×1, além da nova posição de Lula sobre a redução da maioridade penal e a chamada “taxa das blusinhas”. Em alguns casos, os próprios candidatos reconheceram que mudaram de opinião.

Flávio Bolsonaro muda discurso sobre o Bolsa Família

Publicações antigas de Flávio Bolsonaro no X, antigo Twitter, mostram críticas ao Bolsa Família entre 2011 e 2014. Na época, o senador associava o programa à dependência dos beneficiários, ao clientelismo eleitoral e à manutenção do apoio político ao PT.

Em agosto de 2011, ao comentar um reajuste do benefício, escreveu: “Financiamento púb de campanha do pt!”. Em junho de 2013, afirmou que “o PT perpetua a pobreza com o ‘bolsa-farelo’”.

Durante a campanha presidencial de 2026, porém, Flávio passou a defender a continuidade do programa. Em 15 de junho, durante o Fórum Rumos do Brasil, promovido pela revista Veja, em São Paulo, classificou o benefício como um direito adquirido.

“Esse programa virou um direito adquirido do povo brasileiro. Ninguém tem o direito de tocar ou de acabar com esse programa”, declarou.

O senador também apresentou uma proposta para ampliar a regra de transição do Bolsa Família. A ideia é permitir que os beneficiários continuem recebendo parte do auxílio por até dois anos após conseguirem um emprego formal ou abrirem uma empresa.

Em vídeo publicado nas redes sociais em 19 de outubro, Flávio negou que pretenda acabar com o programa e afirmou que o benefício está garantido para as famílias de baixa renda.

Lula passa a defender redução da maioridade penal

Lula também alterou seu posicionamento sobre um tema que defendeu de maneira diferente ao longo de sua trajetória política: a redução da maioridade penal.

Em fevereiro de 2007, após o assassinato do menino João Hélio, no Rio de Janeiro, o presidente se posicionou contra a redução da idade de responsabilização criminal. Na ocasião, afirmou que a medida não resolveria o problema da violência.

Em maio de 2015, durante um ato da Central Única dos Trabalhadores (CUT), em São Paulo, Lula voltou a criticar propostas para reduzir a maioridade penal.

“Parte da elite conservadora acha que vai resolver o problema colocando moleque de 15 anos na cadeia”, declarou.

A posição mudou durante a campanha de 2026. Em 15 de outubro, durante sabatina no Jornal Nacional, da TV Globo, Lula afirmou ser favorável à redução da maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos.

“Todo e qualquer crime hediondo, eu sou favorável a diminuir a maioridade”, disse.

Quatro dias depois, em entrevista ao SBT, o presidente reconheceu a mudança de opinião. “Temos que ter a capacidade de mudar de opinião quando nós somos convencidos de que é importante”, afirmou.

A proposta defendida por Lula se restringe aos crimes hediondos e não abrange todos os delitos cometidos por adolescentes.

Flávio Bolsonaro muda posição sobre a escala 6×1

A jornada de trabalho também entrou na lista de mudanças de posicionamento do senador. Durante a campanha, Flávio defendeu uma alternativa ao fim da escala 6×1, modelo em que o trabalhador atua durante seis dias e descansa um.

Em entrevista ao Domingo Espetacular, da Record, em 30 de agosto de 2026, o candidato defendeu maior flexibilidade nos contratos de trabalho, incluindo a possibilidade de pagamento por hora trabalhada.

“A gente vai defender a liberdade de você, trabalhador, escolher qual é a sua escala de trabalho”, afirmou.

Em setembro, Flávio voltou a defender que sua proposta alternativa fosse votada antes de uma decisão sobre o fim da escala 6×1. Na reta final da campanha, entretanto, passou a apoiar a proposta que prevê o encerramento do modelo de seis dias de trabalho para um de descanso.

Durante debate presidencial da Band, em 18 de outubro, o senador afirmou que mudou de posição depois de ouvir trabalhadores durante a campanha.

“Eu sou uma pessoa que sei ouvir, eu sei escutar, eu sou uma pessoa que, se for convencida, posso melhorar a minha opinião, se isso for melhor também para os cidadãos brasileiros”, declarou.

Flávio acrescentou que decidiu apoiar a medida após percorrer o país e ouvir trabalhadores que desejavam mais um dia de folga.

Lula muda posição sobre a taxa das blusinhas

A tributação de compras internacionais de até US$ 50, conhecida como “taxa das blusinhas”, também marcou uma mudança de posicionamento do governo Lula.

Em 2023, o governo defendia a tributação de produtos importados como forma de proteger o comércio e a indústria nacional da concorrência estrangeira. Em entrevista ao Brasil 247, em 21 de março daquele ano, Lula criticou a entrada de mercadorias que não pagavam impostos no Brasil.

Em 2024, o governo sancionou a legislação que estabeleceu uma alíquota federal de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50.

Dois anos depois, o presidente passou a defender a revogação da cobrança. Em 14 de abril de 2026, durante entrevista aos sites Brasil 247, Revista Fórum e Diário do Centro do Mundo (DCM), Lula afirmou que considerava o imposto desnecessário.

“Eu achava desnecessária a taxa das blusinhas. São compras muito pequenas, as pessoas de baixo poder aquisitivo é que compravam aquilo. Sei do prejuízo que isso trouxe para nós”, declarou.

Em 12 de maio, Lula editou uma medida provisória para zerar o imposto federal nessa faixa de valor. O presidente voltou a defender o fim da cobrança em entrevistas e durante negociações com representantes do Congresso Nacional.

Em 10 de setembro, sancionou a lei que extinguiu definitivamente a tributação federal sobre compras internacionais de até US$ 50.

A mudança ocorreu também em meio ao desgaste político provocado pela cobrança. Pesquisa AtlasIntel divulgada em março de 2026 apontou que 62% dos entrevistados consideravam a criação da taxa o maior erro do governo Lula.

Mudanças de posição entram no debate eleitoral

As alterações nos discursos de Lula e Flávio Bolsonaro mostram como temas sociais, econômicos e de segurança pública ganharam novos contornos durante a campanha presidencial de 2026.

Enquanto Flávio passou a defender a manutenção do Bolsa Família e o fim da escala 6×1, Lula mudou sua posição sobre a redução da maioridade penal em casos de crimes hediondos e sobre a tributação de compras internacionais de baixo valor.

As mudanças incluem tanto declarações públicas quanto decisões políticas e medidas adotadas pelo governo. No caso da taxa das blusinhas, por exemplo, a posição inicial de Lula tratava da tributação de importados de forma mais ampla, enquanto a revogação posterior se concentrou nas compras internacionais de até US$ 50.

A comparação entre os posicionamentos antigos e atuais coloca as propostas dos dois candidatos no centro do debate eleitoral e permite avaliar como suas prioridades e estratégias mudaram ao longo dos anos.

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