O caso que envolve o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master transcendeu a esfera financeira e se consolidou como o maior escândalo da história da capital da República. O elo central do esquema é o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, preso preventivamente desde abril de 2026.
A decisão atendeu ao pedido da Polícia Federal, com manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República, e considerou que o envolvimento de Costa “não se limita a uma negligência administrativa ou deficiência de governança, mas alcança, em tese, a adesão consciente ao arranjo criminoso”. Segundo as investigações, Costa teria recebido seis imóveis de luxo (avaliados em 146 milhões de reais).
O esquema do BRB não se restringiu ao Distrito Federal e alcançou o núcleo do poder político nacional. Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Vorcaro revelaram que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-ministro Ciro Nogueira (PP-PI) estiveram na residência do banqueiro no Lago Sul, em Brasília, na noite de 20 de agosto de 2025 — data em que o então governador Ibaneis Rocha sancionou o aval da Câmara Legislativa do DF à compra do Master pelo BRB. As mensagens registram a articulação do encontro com precisão: Vorcaro propôs “21 pode ser”, Flávio respondeu “Blz” e, às 21h47, enviou nova mensagem informando que estava “a caminho”. O encontro contradiz a versão pública de Flávio, que alega que seus contatos com Vorcaro se restringiram ao financiamento do filme “Dark Horse”.
Capacidade operacional
A governadora do DF, Celina Leão (PP), também recebeu mensagens do banqueiro e afirma que “nunca teve nenhum contato” com o banqueiro. As provas que sustentam as suspeitas de corrupção são robustas. Além das mensagens e áudios recuperados do celular de Vorcaro, a PF identificou que a empresa Tirreno foi constituída como veículo de emissão e circulação dos ativos fraudulentos, repassando créditos para o Master, que os vendia ao BRB.
Documentos do Banco Central confirmaram que as carteiras de crédito consignado eram inexistentes — “nenhum crédito sequer pôde ser confirmado” —, e a PF constatou que o Master não possuía histórico ou capacidade operacional para produzir os volumes bilionários negociados. O Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) bloqueou até R$ 2,7 bilhões em contas e bens de cinco ex-dirigentes do BRB, em decisão unânime tomada em sessão fechada, para resguardar eventual ressarcimento aos cofres públicos.
O impacto do escândalo
A resposta judicial ao escândalo, no entanto, tem sido marcada por decisões controversas do ministro André Mendonça, relator do caso no STF. Se por um lado Mendonça determinou a prisão preventiva de Paulo Henrique Costa e do advogado Daniel Lopes Monteiro, por outro liberou 23 imóveis vinculados a cédulas de crédito cedidas pelo Master ao BRB, determinando a retirada de restrições sobre os bens.
O impacto do escândalo recai diretamente sobre os servidores públicos do Distrito Federal. O BRB administra a folha de pagamento dos servidores distritais e operacionaliza repasses ligados a políticas públicas locais, o que amplia a responsabilidade do GDF na condução do caso. Entidades sindicais alertam que a crise pode resultar em cortes em serviços essenciais e no congelamento de reajustes e planos de carreira, com o funcionalismo público sendo chamado a “pagar a conta” de um rombo bilionário. A correlação entre as provas materiais e a prática de corrupção é direta, configurando um dos mais graves episódios de promiscuidade entre o poder econômico e o poder político já registrados na capital da República.
O mais recente relatório da PF, encaminhado ao STF em 28 de setembro de 2026 e com sigilo derrubado em 9 de outubro, aponta “interferência política direta” do ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) e de sua equipe na negociação entre o BRB e o Banco Master. Segundo o documento, Ibaneis “não se limitou ao exercício regular de suas prerrogativas institucionais”: decisões estratégicas do banco eram submetidas a ele antes mesmo da deliberação formal dos órgãos de governança, configurando o que os investigadores classificam como “captura institucional”. A PF identificou que Ibaneis atuou de forma direta na autorização dos montantes do aumento de capital, na definição da estratégia de expansão, na validação de decisões operacionais críticas e na articulação com agentes privados.
Tratativas presenciais
O relatório detalha ainda o encontro em Zurique, na Suíça, em 23 de janeiro de 2025, descrito como marco inicial das tratativas presenciais para viabilizar a aquisição do Master pelo BRB. Participaram Ibaneis Rocha, Daniel Vorcaro, Paulo Henrique Costa e uma pessoa identificada apenas como Leonardo. Três dias antes, em 20 de janeiro de 2025, Paulo Henrique Costa escreveu a Vorcaro: “Amigo, quando vc vem a Zurique? O governador pediu para marcarmos uma reunião” — evidência de que o encontro foi solicitado pelo próprio governador. Em outra mensagem, Paulo Henrique relatou a Vorcaro que Ibaneis pediu que ele “preparasse um material para a argumentação dele, porque vamos receber críticas”, demonstrando que o governador coordenava a estratégia de comunicação para defender a operação.
A PF também identificou que, já em outubro de 2024, a aquisição e a integração do Master ao BRB estavam definidas no plano estratégico do banco, e que “em exatos 3 meses, após a aprovação do Aumento de Capital, se iniciaram as tratativas entre o governador Ibaneis, Daniel Vorcaro, Paulo Henrique para aquisição do Master pelo BRB”. As mensagens interceptadas revelam ainda que Ibaneis enviou diretamente a Vorcaro uma liminar judicial e um decreto relacionados à negociação, além de combinar encontros presenciais com o banqueiro, a maioria deles na residência de Vorcaro no Lago Sul. Questionado, Ibaneis confirmou a autenticidade das mensagens, mas alegou que sua atuação foi “institucional e jurídica” e que foi convencido por Paulo Henrique Costa de que o negócio seria vantajoso para Brasília.



