Ópera de rua de Jorge Antunes transforma política em sátira musical no Lago Norte

Espetáculo gratuito reúne mais de 30 artistas em montagem que combina canto lírico, teatro e caricaturas inspiradas no noticiário político brasileiro

Redação
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A montagem faz referências ao caso Banco Master/BRB e utiliza humor, ironia e sarcasmo para transformar acontecimentos políticos em arte.IMAGEM: DIVULGAÇÃO
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O maestro e compositor Jorge Antunes estreia neste sábado (10/10), às 16h, a ópera de rua “Sujeiras Atrás da Moita”, em uma área verde no Lago Norte, em Brasília. A apresentação gratuita reúne música, teatro, caricatura e sátira política em uma montagem inspirada em acontecimentos e personagens do noticiário nacional, com referências ao caso Banco Master/BRB.

A obra utiliza humor, ironia, sarcasmo e exagero para transformar temas relacionados à política em uma encenação musical. Os personagens são representações caricaturais, com nomes alterados e características exageradas, e não reproduções literais das pessoas e dos acontecimentos mencionados.

Entre as figuras da montagem estão Governador Ivaneis, Celinha Léo da Catraca, Ermitão Daniel Forcaro, Juiz Chandão e Juiz Trófolli do Resort. O elenco também inclui personagens como O Rei do Mal de Trump, Karla Zombelli, Damaris Micheque Pneuvangélica, um soldado, um cabo e J. Antunes, conhecido como O Revoltoso.

Segundo Jorge Antunes, a proposta é utilizar a linguagem artística para deformar e reinterpretar referências da realidade. “A sátira exagera, distorce e provoca”, resume o compositor, que deixa ao público a tarefa de reconhecer as referências e estabelecer suas próprias relações.

Máscaras e personagens

Além de assinar o libreto, a composição musical e a direção geral, Jorge Antunes confeccionou pessoalmente as máscaras utilizadas na apresentação. Inspirados na tradição do teatro grego, os adereços apresentam feições grotescas, bocas ampliadas e expressões acentuadas, reforçando a caracterização dos personagens.

A proposta visual integra o processo criativo da ópera, que combina canto lírico, interpretação, música contemporânea e artes visuais. O título faz referência àquilo que permanece escondido até vir à tona, ideia que conduz parte da narrativa.

O compositor também participa da obra por meio do personagem J. Antunes, O Revoltoso. Inicialmente, ele pretendia interpretar o próprio papel, mas decidiu entregar a função ao poeta José Sóter. Na cena final, o personagem conclama o povo a intervir e conduz o coro em um desfecho de esperança.

Mais de 30 artistas no palco

A montagem reúne mais de 30 artistas, entre solistas, instrumentistas, integrantes do conjunto vocal e do coro. Entre os solistas estão Demétrio Bogéa, Yonaré Barros, Jansler Aragão, Claudia Costa, André Teles, Juliano Berko e Andreia Lira.

Claudia Costa interpreta Celinha Léo da Catraca, enquanto Juliano Berko dá vida ao personagem Daniel Forcaro. André Teles interpreta Juiz Trófolli do Resort. O poeta José Sóter assume o papel de J. Antunes, O Revoltoso.

A formação vocal conta ainda com Cris Tavares e Thaissa Albuquerque Aragão, sopranos; Wilzy Carioca, Claudia Costa e Luana Akemi, contraltos; e Hélio Miranda, Paulo Vieira e Adélio Rocha, barítonos.

O coro reúne Laine Emanuelle, Laura Ribeiro, Luciana Szepaniuk, Maria Amélia, Marina Andrade, Pantica Bittencourt e Mattoso Ribeiro. A preparação e a direção do grupo ficam a cargo da maestra Wilzy Carioca.

A parte instrumental é executada pela Orquestra da Delação Rejeitada, formada por flauta, clarinete, clarinete baixo, violino, viola, violoncelo, teclado, contrabaixo, baixo elétrico e percussão. A regência é do maestro Jorge Lisbôa Antunes, filho do compositor e professor da Escola de Música de Brasília, com experiência à frente de orquestras no Brasil e no exterior.

Trajetória das óperas de rua

A expressão “ópera de rua” foi criada por Jorge Antunes em 2010 para definir um formato popular que combina solistas, coro e orquestra em histórias relacionadas à política e à sociedade. A proposta é levar a linguagem operística para além das salas de espetáculo, aproximando música e teatro do cotidiano do público.

A primeira obra do gênero criada pelo maestro foi “Auto do Pesadelo de Dom Bosco”, apresentada em 2010 e inspirada no escândalo da Caixa de Pandora, envolvendo o então governador José Roberto Arruda e outros políticos. Em 2011, a montagem recebeu apoio do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF) e circulou por cidades do DF.

Em 2016, Antunes compôs “Olympia ou Sujadevez”, obra que abordou os acontecimentos políticos que culminaram no impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Três anos depois, lançou “O Exfakeado”, que utilizou humor e caricatura para construir uma narrativa sobre um personagem fictício que teria simulado um atentado para influenciar a opinião pública e ser eleito presidente. A produção também recebeu apoio do FAC-DF e circulou por dez cidades do Entorno.

Da música eletrônica à criação cênica

Jorge Antunes formou-se em violino, composição e regência na Escola de Música da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em 1961, destacou-se como um dos precursores da música eletrônica no Brasil e, posteriormente, realizou estudos de pós-graduação na Argentina, na Holanda e na França.

O compositor foi professor titular da Universidade de Brasília (UnB) de 1973 a 2011, quando se aposentou. É membro da Academia Brasileira de Música, recebeu prêmios nacionais e internacionais e tem obras registradas em mais de 30 LPs e CDs. Suas partituras são publicadas por editoras europeias, entre elas Salabert, Breitkopf & Härtel, Gerig, Ricordi, Universal, Billaudot e Suvini Zerboni.

Em “Sujeiras Atrás da Moita”, Antunes reúne diferentes áreas de sua produção artística: composição musical, dramaturgia, desenho de personagens, confecção de máscaras e direção de cena. A proposta é transformar referências do cotidiano em uma farsa musical e visual, sem oferecer uma interpretação única dos acontecimentos.

Produção independente

A nova ópera é realizada de forma independente, com a participação de artistas voluntários, instrumentistas, cantores, equipe técnica e colaboradores. Segundo o material de divulgação da produção, a dificuldade de obter apoio logístico e financeiro levou o grupo a organizar a montagem por meio de contribuições e de uma campanha de financiamento coletivo.

Os recursos arrecadados foram destinados à realização do espetáculo, à sonorização, à impressão de livros-programas e à transmissão ao vivo pela internet.

Embora seja apresentada em uma propriedade privada, a montagem mantém a proposta de aproximar a ópera do público, reunindo música, interpretação, humor e artes visuais em uma apresentação ao ar livre.

Serviço:

Sujeiras Atrás da Moita — ópera de rua de Jorge Antunes
Data: sábado, 10 de outubro de 2026
Horário: 16h
Local: Área Verde, nos fundos da SHIN QI 5, conjunto 3, casa 23, Lago Norte, Brasília (DF).
Acesso: entrada pelos fundos, na rua da 9ª Delegacia de Polícia, pelo portão em frente ao Colégio INDI.
Entrada: gratuita.
Transmissão ao vivo: YouTube.

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