O Distrito Federal deve ganhar cinco novos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) até 2027, mas a implantação das unidades tem provocado resistência entre moradores das regiões onde os equipamentos estão previstos. As principais reclamações envolvem segurança, impactos ambientais e a preferência por outros usos para os terrenos públicos.
Os novos Caps estão planejados para Taguatinga, Ceilândia, Guará, Gama e Recanto das Emas. Até o momento, apenas a unidade do Gama começou a funcionar, em julho. A expansão considera a baixa cobertura de saúde mental do DF, que possui um dos menores índices do país.
A subsecretária de Saúde Mental do DF, Fernanda Falcomer, afirma que parte da resistência está relacionada à falta de informação sobre o funcionamento dos serviços. Segundo ela, conteúdos publicados nas redes sociais também contribuem para reforçar o estigma em torno dos Caps e das pessoas que buscam atendimento.
Atendimento dentro das comunidades
O modelo de assistência em saúde mental adotado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) prevê que os Caps estejam inseridos nos bairros. A proposta busca oferecer tratamento próximo à comunidade e contribuir para a reabilitação e a convivência social dos pacientes.
Para Falcomer, os terrenos utilizados para as unidades já possuem previsão de receber equipamentos públicos. Ela defende que a população compreenda a função desses espaços dentro da rede de saúde mental.
Em Taguatinga, porém, moradores questionam a utilização de um terreno que, segundo eles, permaneceu abandonado durante anos e passou a ser cuidado pela própria comunidade.
O professor de arquitetura e urbanismo da Universidade de Brasília (UnB), Frederico Flósculo, defende maior participação popular nas decisões sobre o uso dos espaços públicos. Para ele, audiências públicas poderiam contribuir para discutir a implantação dos equipamentos e a relação deles com os bairros.
O especialista também questiona a arquitetura de alguns Caps do DF, especialmente a presença de muros e estruturas que, na avaliação dele, podem dificultar a integração com a comunidade. Entre as alternativas apontadas estão áreas de convivência, hortas comunitárias e espaços de lazer.
Especialistas defendem aproximação com moradores
O professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Silvio Yasui, que atuou no primeiro Caps do Brasil, em São Paulo, afirma que a resistência às unidades já esteve presente em outros momentos da reforma psiquiátrica.
Segundo Yasui, o diálogo com os moradores pode ajudar a reduzir o estigma e aproximar a população dos serviços. Entre as possibilidades citadas estão eventos abertos à comunidade e ações que permitam aos moradores conhecer o funcionamento dos centros.
O Caps é voltado ao atendimento de pessoas em intenso sofrimento psíquico. O serviço oferece acolhimento, acompanhamento por equipe multiprofissional e ações de reabilitação, com tratamento voluntário.
DF ainda tem baixa cobertura
Mesmo com a expansão prevista, o Distrito Federal permanece entre as unidades da Federação com menor cobertura de Caps. Em 2025, Brasília registrou o segundo pior índice do país, atrás apenas do Amazonas.
De acordo com os dados citados na matéria, o DF passou de 18 para 19 unidades com a inauguração do Caps do Gama. A Secretaria de Saúde prevê a entrega do Caps do Recanto das Emas para outubro deste ano. Ceilândia e Taguatinga têm conclusão prevista para 2027, enquanto o projeto do Guará está em fase de contratação da obra.
A pasta também informa que outros sete Caps estão previstos para o período entre 2027 e 2029, condicionados à disponibilidade orçamentária e à existência de terrenos adequados.
Para quem precisa de atendimento, os Caps e as Unidades Básicas de Saúde (UBSs) são portas de entrada da rede pública de saúde mental. O Centro de Valorização da Vida (CVV) também oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia.



