O Distrito Federal atende a apenas três dos 15 pilares considerados essenciais para o enfrentamento das mudanças climáticas, segundo o Painel Clima Brasil, do Tribunal de Contas da União (TCU). O diagnóstico avaliou como estados e o DF estão estruturados para prevenir e reduzir os impactos do aquecimento global.
A avaliação aponta que a capital federal apresenta fragilidades em áreas importantes da governança climática. Entre os problemas identificados estão a falta de recursos específicos no orçamento, limitações no mapeamento das populações mais vulneráveis e um diagnóstico de riscos que não estabelece ações, prazos, responsáveis e indicadores para cada ameaça identificada.
Impactos podem ser maiores fora do Plano Piloto
De acordo com o coordenador do Laboratório de Climatologia Geográfica da Universidade de Brasília (UnB), Rafael Rodrigues Franca, os efeitos das mudanças climáticas tendem a ser mais intensos em regiões que possuem menos áreas verdes e infraestrutura urbana.
Ceilândia, Taguatinga, Sol Nascente e Samambaia estão entre as regiões citadas pelo especialista como locais que podem enfrentar maiores dificuldades diante do aumento das temperaturas e da ocorrência de eventos extremos.
O indicador de justiça climática recebeu uma das avaliações mais baixas para o DF. O levantamento aponta ainda que a capital, assim como 40% das capitais analisadas, não possui mapeamento das populações mais afetadas pelas mudanças climáticas.
Chuvas intensas e alagamentos
A ausência de áreas verdes e de estruturas adequadas de drenagem aumenta a vulnerabilidade de determinadas regiões aos temporais. Árvores, gramados e outras áreas permeáveis contribuem para a absorção da água da chuva e também ajudam a reduzir as temperaturas nas áreas urbanas.
O fenômeno das ilhas de calor, associado à concentração de concreto e asfalto, pode elevar ainda mais as temperaturas nos centros urbanos em comparação com áreas rurais.
Estiagem aumenta risco de queimadas
As alterações no regime de chuvas também podem prolongar os períodos de estiagem e elevar o risco de incêndios florestais. Até julho deste ano, o Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF) registrou 2.707 ocorrências de incêndio.
Os eventos extremos também podem afetar diretamente a saúde da população. Segundo Rafael Franca, o aumento das queimadas favorece a poluição do ar, enquanto as chuvas intensas podem ampliar o risco de doenças como a leptospirose. O calor excessivo também aumenta a possibilidade de problemas como hipertermia e desidratação.
O especialista destaca ainda uma possível relação entre temperaturas mais elevadas e a transmissão da dengue. O calor acelera o desenvolvimento do mosquito vetor e pode reduzir o tempo do ciclo de reprodução, favorecendo a disseminação da doença.
Até 27 de agosto, as maiores taxas de incidência de dengue no DF estavam concentradas fora do Plano Piloto, com destaque para Varjão, Sol Nascente/Pôr do Sol e Santa Maria.
Falta de orçamento é um dos principais obstáculos
A auditoria do Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF), realizada em parceria com o Painel Clima Brasil, também avaliou a governança, as políticas públicas e o financiamento das ações climáticas.
O relatório aponta que o DF possui legislação considerada avançada e prevê medidas de enfrentamento às mudanças climáticas em seu planejamento de governo. A principal dificuldade está na execução dessas políticas.
Segundo a auditoria, não foram identificadas, nas Leis Orçamentárias Anuais (LOAs) de 2024 e 2025, ações orçamentárias expressamente relacionadas à política de mudança do clima. Para o auditor do TCDF Dashiell Velasque da Costa, o financiamento é uma das principais fragilidades das políticas climáticas no país.
Outro problema apontado é o mapeamento de riscos climáticos. O relatório considera o diagnóstico atual do DF genérico e afirma que ele não relaciona ações específicas a cada risco identificado, nem estabelece prazos, responsáveis, recursos ou indicadores. Para a auditoria, essa ausência limita a efetividade da gestão climática.



