Série Eleições 2026: entre o pragmatismo e a identidade fragmentada

O que o eleitor do DF precisa é mais do que eficiência. Precisa de mudanças reais

Rodrigo Santana
Por Rodrigo Santana  - Psicólogo 5 Min Leitura
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Entre a desconfiança e a representação, o brasiliense busca quem reflita sua realidade.Imagem: IA
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Existe um ditado popular que fala algo, mais ou menos assim: “Política, religião e futebol não se discute…”, pois bem, ninguém falou que não podíamos observar e analisar…

Sempre gostei de perceber como as pessoas podem se comportar em eventos grandiosos ou importantes. E ao longo da minha vida, venho observando como as pessoas na nossa cidade agem nos períodos eleitorais. Aqui no DF, os votos não são concedidos apenas com a razão ou com a emoção… aqui se vota com o “GPS ligado”. É como se em Brasília o voto tivesse um cálculo de rota: qual caminho pode nos levar mais rápido aos serviços públicos de qualidade, ou a infraestrutura mais adequada para região do meu imóvel e à segurança da minha quadra? Mas, nas eleições de 2026, algo mudou. Parece que o GPS pifou.

Comportamento eleitoral

Brasília sempre foi um laboratório de comportamento eleitoral atípico. Aqui, o eleitor é, em média, mais escolarizado, mais exposto ao dia a dia do Estado e, por isso, mais crítico. Sabe que o discurso de “mudar tudo” raramente se traduz em mudança real. Por isso, historicamente, o eleitor brasiliense tendeu ao pragmatismo: votava em quem prometia eficiência, não revolução.

Em 2026, porém, esse pragmatismo convive com uma identidade fragmentada. O DF é um mini Brasil: tem o servidor público estável, tem o empreendedor, o morador da periferia. Cada um desses grupos vive uma realidade psicológica distinta. O servidor vive a sensação de perda de benefícios, dado à generalização de possíveis “benefícios exagerados”, massivamente explorado em narrativas efusivas; já o empreendedor clama por impostos justos, segurança pública, melhores condições para prosperar seus negócios e menos burocracia; o morador da periferia quer, simplesmente, dignidade.

Desconfiança

Daí você lê e pergunta: O que une esses mundos? Eu vos digo: a desconfiança. Pesquisas locais mostram um eleitorado ainda em consolidação, com altos índices de indecisão. Isso não é apatia. É cansaço. É o eleitor que já viu promessas de “gestão técnica” virarem cabide de emprego, e promessas de “moralização” virarem perseguição política.

Parece-me que psicologicamente, o eleitor do DF está em um estado de alerta constante. Ele não acredita em heróis. Busca testar seus governantes. Ele compara com os estados vizinhos. Ele espera o segundo turno para decidir.
Esse comportamento é como se fosse uma esquiva: em um ambiente onde a informação é abundante, mas a confiança é escassa, o eleitor se protege adiando a escolha.

Opções genéricas

Em outros casos, percebo o fenômeno do “voto empático”. Muitos eleitores brasilienses votam em pessoas que podem “refletir” sua própria trajetória. O servidor vota no servidor. O policial escolhe um policial, o religioso escolhe um líder de sua crença para depositar seu voto. Tenho a impressão que existe uma busca por representação identitária, nesse mar de opções genéricas. Percebo que os brasilienses não acreditam num “salvador” e nessa desconfiança, buscam mais algo que está próximo a sua verdade, buscam se ver no seu candidato de alguma forma.

A reflexão que fica é: o que acontece quando um dos eleitores mais informados do país também tende a ser um dos mais descrentes? Talvez a resposta para as campanhas e para os postulantes ao poder, esteja em entender que apenas as promessas, dados e informação não geram confiança. Geram, no máximo, discernimento. Mas que apenas discernimento sem esperança pode resultar numa apatia eleitoral. O que o eleitor do DF precisa é mais do que eficiência. Precisa de mudanças reais. Precisa de um projeto político que consiga unir todos os seguimentos da cidade, em um projeto comum de desenvolvimento.

Se este projeto não vier, não se apresentar, pode o eleitor brasiliense continuar votando com o GPS ligado, mas sem destino certo.

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Posted by Rodrigo Santana Psicólogo
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Psicólogo, mestre em Saúde Pública e doutor em Governança e Transformação Digital
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