Vigotski é um dos principais teóricos que trata do desenvolvimento humano. Por meio de sua Teoria Histórico Cultural defende que aprendemos por meio de interações sociais, postulando que o indivíduo forma suas funções psicológicas superiores (pensamento abstrato, memória voluntária, linguagem) a partir da interação com o meio e a cultura, sendo a linguagem seu principal sistema de mediação. Explicando de maneira simplista, o desenvolvimento humano decorre de um processo dedutivo, do coletivo para o individual, posto que ocomportamento humano é pautado pela relação que estabelecemos com o outro (ao que ele chama de nível interpsicológico) para depois ser internalizado pelo indivíduo (nível intrapsicológico).
É importante esclarecer que não se trata de mera imitação da realidade, mas de absorvermos as regras sociais e assimilarmos comportamentos que entendemos como exemplos a serem seguidos. A imitação não se trata de um ato mecânico, mas da adoção de um comportamento que advém do significado que damos a ele. Quando admiramos alguém ou o reconhecemos como conhecedor, estamos identificando que ela sabe algo que ainda não sabemos, o que nos possibilita sair do nível de desenvolvimento real (nível em que estamos no momento) para o nível de desenvolvimento potencial (nível que podemos alcançar por meio desse exemplo ou desse ferramental que nos é apresentado).
Formação cultural e ética
Como se pode ver, nossos ídolos influenciam diretamente na formação cultural e ética de crianças e jovens, moldando formas de ver o mundo, de pensar, de vestir e de se expressar por meio de diferentes linguagens. Não é difícil constatar em nosso cotidiano como nossos ídolos ditam comportamentos, valores, padrões de consumo, influenciando diretamente na formação identitária dessas crianças e adolescentes, servindo como modelos aspiracionais. Podemos entender aqui que se gera uma dinâmica de transformação da zona de desenvolvimento proximal (distância entre o que se sabe fazer sozinho e o que é possível fazer com a ajuda de outrem).
Pertencimento
A identificação com os ídolos gera, a um só tempo, um senso de pertencimento, como também altas expectativas de desempenho ou o desejo por um estilo padronizado de vida, relacionados especialmente à beleza e ao consumo.
No caso dos esportes, isso ganha enorme vulto no sentido de que os ídolos remetem a valores universais como superação, disciplina e sucesso. Tal perspectiva nos impulsiona a refletir sobre sua responsabilidade no que diz respeito à forma como se relacionam com o mundo; à maneira como lidam com causas sociais e ambientais; às diferentes intenções nas campanhas de que participam; ao comportamento ético que se concretiza no fair play e no respeito aos adversários, dentre outras tantas coisas. Quando um ídolo se comporta de maneira desleal, violenta ou inadequada, dentro ou fora dos campos, normaliza atitudes e condutas de jovens e crianças, o que impacta o tecido social como um todo. A pergunta que abre essa coluna remete exatamente a essa reflexão: No mundo do futebol: o que nossos ídolos têm ensinado a nossas crianças?



