Ângela Ro Ro, uma das artistas mais singulares da música brasileira, morreu nesta segunda-feira (8), aos 75 anos, no Rio de Janeiro. A cantora e compositora estava internada desde junho, após contrair uma infecção pulmonar grave.
Com sua voz rouca, piano marcante e canções que atravessaram décadas, Ro Ro marcou a MPB com intensidade e coragem. Foi uma das primeiras mulheres a assumir publicamente sua homossexualidade em um cenário artístico ainda conservador, gesto que transformou sua trajetória em símbolo de autenticidade e resistência.
A artista viveu os últimos meses em um embate delicado contra a doença. Durante o período de internação, passou por traqueostomia, hemodiálise e sedação, o que comprometeu movimentos e voz — justamente sua ferramenta mais potente. Mesmo diante da fragilidade, manteve a luta pela recuperação, retomando a fala após procedimentos médicos e recebendo apoio constante de admiradores.
Paralelamente, enfrentava dificuldades financeiras. Sem shows e sem parceria com a produtora que a acompanhava há anos, dependia da solidariedade de fãs e amigos para custear o tratamento. Ainda assim, buscava preservar sua dignidade e mantinha contato com o público por meio de notas e apelos.
Música que atravessa gerações
A carreira de Ro Ro começou oficialmente em 1979, com o álbum homônimo que logo se tornou referência e entrou para listas de melhores discos da música nacional. Obras como Escândalo! e Só Nos Resta Viver consolidaram seu espaço entre os grandes nomes da MPB. Diversos artistas, de Maria Bethânia a Ney Matogrosso, interpretaram suas canções, eternizando sua obra em vozes múltiplas.
Mais do que a intérprete intensa, fica a memória de uma mulher que nunca se curvou a convenções. Suas composições, ora confessionais, ora contestadoras, revelaram uma artista que fez da vulnerabilidade força e da franqueza poesia.
A despedida de Ângela Ro Ro deixa silêncio nos palcos, mas sua música segue pulsando como lembrança viva de uma artista que não temeu ser inteira — na arte e na vida.




