Pedalava para acordar

Há uma diferença entre uma meta de fora e uma mudança de dentro

Roger Vila Verde
Por Roger Vila Verde 4 Min Leitura
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imagem: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
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Em 2006 subi na bicicleta por vaidade. Não por saúde, não por epifania — pela calça que não fechava e pelo número na balança. A entrada mais banal do mundo, a mesma de milhões.

O selim doía, o suor vinha antes dos primeiros quinhentos metros, e a culpa era mastigada junto com o café. Não havia heroísmo ali. Havia um corpo cansado de si mesmo e a aposta rasa de que o suor resolvesse o que a balança cobrava.

Qualidade do sono

As semanas passaram e o corpo respondeu — a roupa folgou, o fôlego se alongou. Mas a mudança que me pegou desprevenido não estava nas medidas. O sono, que era um campo minado de despertares às três da manhã, voltou a ser um rio contínuo. A cabeça, uma gaveta emperrada, foi se esvaziando a cada volta de pedal. A cidade às cinco da manhã tem uma textura que o para-brisa esconde, e eu estava vendo pela primeira vez.

Não houve estalo. Foi como perceber, semanas depois, que já não contava os quilômetros para voltar para casa — contava os minutos para sair. A balança tinha deixado de ser a régua. O movimento havia virado a chegada.
Levei tempo para entender, e não foi nada místico. Há uma diferença entre uma meta de fora e uma mudança de dentro.

Quem se move para emagrecer ou agradar o espelho para quando a meta chega — ou quando ela demora demais. Quem se move porque aquilo virou parte de quem é não tem mais meta a bater; tem só o amanhã a cumprir. É a distância entre “quero perder peso” e “sou alguém que pedala”. A primeira tem prazo de validade. A segunda não. Essa virada não tem data marcada: aparece do lado de dentro, quase sempre sem aviso.

Razão para amanhecer

Fauja Singh é o retrato extremo disso. Começou a correr por volta dos oitenta e nove anos — não por saúde, por luto. A esposa e o filho tinham partido, e o silêncio em casa era insuportável; ele calçou o tênis para não enlouquecer. Aos cem, completou uma maratona. Morreu aos 114, atropelado numa estrada perto de casa. A proeza não é o ponto. O ponto é a porta de entrada: ele entrou pela dor e saiu com uma razão para amanhecer. O motivo original nunca é o final da história.
O corpo não distingue intenção: pedala igual para quem quer emagrecer e para quem quer viver. Quem distingue é a cabeça — e é ela que decide se você volta amanhã.
 
A mesma ilha que descrevi no texto anterior — a Brasília que nutre de manhã e digere à noite — continua lá. O happy hour, as telas, o trabalho que não espera. A ilha não muda. Quem muda é você quando acha o barco. A bicicleta foi o meu. E a cada manhã, pedalando para longe da margem, eu percebia que tinha parado de ser digerido e começado a navegar.

Emagrecer foi a desculpa. O que ficou foi outra coisa — e essa não cabe em balança nenhuma.

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Posted by Roger Vila Verde
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Cirurgião-dentista pela Universidade de Brasília (UnB) 1991. Especialista pela USP-Bauru. Tecnólogo em Qualidade de Vida (MEC) e atleta master da equipe de natação SEL/DEFER. Autor do livro "Organismos Menores Vivem Mais — A Bússola da Longevidade Humana".
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