Quase três em cada dez crianças e adolescentes avaliados em escolas brasileiras foram classificados com hipertensão arterial, segundo a primeira fase do projeto Brasil Coração Saudável. O levantamento analisou 6.092 estudantes de escolas de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e São Paulo, entre junho e outubro de 2026, e identificou uma associação entre alterações na pressão arterial e excesso de peso.
De acordo com os resultados, 28,3% dos participantes apresentaram hipertensão e outros 11,6% foram classificados com pré-hipertensão. O excesso de peso também chamou a atenção dos pesquisadores: 33,1% dos estudantes tinham sobrepeso ou obesidade, incluindo casos de obesidade grave.
A relação entre peso e pressão arterial ficou evidente na análise dos dados. Entre crianças e adolescentes de 7 a 18 anos com obesidade, 48,4% apresentaram hipertensão. O percentual foi de 30,1% entre aqueles com sobrepeso e de 22,6% entre os estudantes com peso considerado adequado.
A diferença foi ainda maior entre adolescentes de 15 a 18 anos. Nessa faixa etária, a hipertensão atingiu 60,5% dos participantes com obesidade, contra 32,6% daqueles com sobrepeso e 23,4% dos classificados como eutróficos.
Meninos apresentam percentuais mais elevados
Os resultados também apontaram diferenças conforme a idade e o sexo. Entre os meninos de 15 a 18 anos, 40,7% foram classificados com hipertensão, a maior proporção entre os grupos analisados. Entre as meninas da mesma faixa etária, o índice foi de 28,6%.
Entre as crianças menores de 7 anos, os percentuais também foram elevados: 39,1% dos meninos e 30,2% das meninas apresentaram hipertensão. A pré-hipertensão foi identificada em 12,6% dos meninos e 10,7% das meninas.
O levantamento ainda observou aumento progressivo da pressão arterial média com a idade. Entre os meninos de 7 a 10 anos, a pressão sistólica média foi de 103,5 mmHg, enquanto entre aqueles de 15 a 18 anos chegou a 121,8 mmHg. Entre as meninas, a média passou de 103,6 mmHg para 112,6 mmHg nas mesmas faixas etárias.
Excesso de peso e gordura abdominal
O sobrepeso foi identificado em 19,5% dos participantes, enquanto a obesidade atingiu 13,6%. Entre as meninas de 11 a 14 anos, o sobrepeso chegou a 24%. Já a obesidade foi mais frequente entre os meninos de 7 a 10 anos, com 17,1%.
A pesquisa também avaliou indicadores de gordura abdominal. Ao todo, 17,4% dos participantes apresentaram relação cintura/estatura superior a 0,5. Nesse grupo, 40,6% foram classificados com hipertensão, contra 24,4% daqueles com medida abaixo desse limite.
Quando considerada a circunferência abdominal, a hipertensão foi identificada em 46,3% dos estudantes com medidas iguais ou superiores ao percentil 90, enquanto o percentual foi de 26,3% entre os demais.
Os pesquisadores ressaltam, porém, que os resultados são descritivos e não permitem estabelecer uma relação de causa e efeito entre o excesso de peso, a gordura abdominal e a hipertensão.
Uso de telas e atividade física
Os hábitos cotidianos também foram investigados. Segundo o levantamento, 59% dos estudantes passavam pelo menos três horas por dia diante de telas fora do ambiente escolar. O tempo médio foi de 3,8 horas diárias, e o celular apareceu como o dispositivo mais utilizado, citado por 86% dos participantes.
Embora 93% dos estudantes tenham relatado praticar alguma atividade física na escola, 66,1% daqueles que realizavam essas atividades dedicavam apenas uma a duas horas semanais à prática.
O estudo também identificou relatos de estresse intenso ou exagerado em 12,7% dos participantes no ambiente doméstico e em 12,5% na escola. Na avaliação sobre a sociedade, o percentual foi de 6,3%.
Gratidão, altruísmo e saúde emocional
A pesquisa incluiu ainda uma avaliação de aspectos relacionados à saúde espiritual, por meio da versão brasileira para crianças do instrumento PRIMA. Entre as dimensões analisadas, a gratidão apresentou o maior percentual de concordância, com 93%, seguida pela compaixão, com 87,5%, e pelo altruísmo, com 86,4%.
O levantamento também identificou indicadores relacionados a ressentimento e raiva. Entre os registros avaliados nessa etapa, 56,7% concordaram com uma afirmação sobre ressentimento por pessoas que os prejudicaram, enquanto 45,8% concordaram que a raiva havia prejudicado suas relações.
Os dados fazem parte da primeira fase do Brasil Coração Saudável, que reuniu estudantes de 38 escolas. Como a amostra se concentrou principalmente em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul, com participação reduzida de São Paulo, os resultados não representam necessariamente toda a população infantojuvenil brasileira.
Além disso, o documento não detalha o protocolo utilizado para confirmar os casos de hipertensão. Por isso, as classificações apresentadas devem ser interpretadas como resultados do levantamento, e não automaticamente como diagnósticos clínicos definitivos.



