Quem conhece Kelly Tavares pelo sorriso com que recebe as famílias no estúdio dificilmente imagina quantas vezes ela precisou começar de novo. A fotógrafa que hoje lidera uma equipe de 10 colaboradores e se tornou referência em fotografia materno infantil construiu a carreira enfrentando perdas, dificuldades financeiras e desafios que mudaram sua forma de enxergar a vida.
O primeiro deles veio cedo.
A infância foi marcada por conflitos familiares e pela separação dos pais. Ainda muito jovem, viu a mãe se mudar para a Bahia, o pai para Minas Gerais e precisou aprender a caminhar praticamente sozinha. “Foi uma fase de muita solidão”, recorda.
Foi justamente nesse período que surgiu uma oportunidade inesperada. Enquanto trabalhava como monitora em festas infantis, viu uma vaga para um estúdio fotográfico. Ela não tinha experiência como fotógrafa e também não preenchia todos os requisitos anunciados. Mesmo assim, decidiu tentar.
Eu falei: ‘Eu sei editar muito bem, amo crianças e, se você me ensinar a fotografar, eu aprendo.'”
A sinceridade pesou mais que o currículo. Kelly foi contratada e descobriu ali uma profissão que mudaria sua vida.
Fotografar para viver
Aos 18 anos, morando sozinha em uma pequena kitnet, ela transformou a própria casa no primeiro estúdio. Um colchão, um micro-ondas, uma geladeira pequena e um fundo branco improvisado dividiam espaço com os primeiros ensaios fotográficos.
A fotografia, para mim, foi muito uma questão de subsistência.”
Foi nessa época que conheceu Jonathan. A gravidez inesperada coincidiu com a falência da empresa dele. Em vez de desistirem, decidiram unir forças. Ela fotografava. Ele cuidava das vendas. O estúdio, durante algum tempo, funcionou dentro do carro da família, levando equipamentos de um cliente para outro até que conseguissem montar o primeiro espaço físico.
O trabalho trouxe resultados. Vieram novos clientes, um estúdio maior, a casa própria e o crescimento da empresa. Mas a estabilidade durou pouco.
A vida mudou de foco
A pandemia interrompeu os ensaios e trouxe de volta a insegurança financeira. Para manter a família, Kelly e o marido venderam marmitas enquanto buscavam uma forma de manter o negócio vivo. Pouco depois, outro desafio mudaria completamente a rotina da casa: o diagnóstico de autismo do filho César. As terapias passaram a fazer parte do dia a dia e obrigaram a família a tomar uma das decisões mais difíceis da sua história.
Nós vendemos a nossa casa para conseguir investir novamente no negócio e garantir as terapias do César.”
Enquanto reorganizava a empresa, Kelly recebeu também o próprio diagnóstico de autismo.
O diagnóstico me gerou um processo de luto, mas também um processo de alívio.”
A descoberta explicou muitas das dificuldades que a acompanharam desde a infância e deu um novo significado à sua caminhada. Hoje, além de liderar uma equipe de fotógrafos, Kelly compartilha sua experiência com outras famílias e fala sobre maternidade, empreendedorismo e inclusão.
Ao olhar para trás, ela não mede a própria história pelas conquistas materiais, mas pela capacidade de seguir em frente.
Hoje eu consigo olhar para trás e dizer: eu venci na vida.”



