Recentemente, assisti a um vídeo desses que simulam situações sociais para verificar a reação de transeuntes em grandes centros urbanos. Nesse caso, havia um homem cego à beira de uma escada bastante íngreme que tentava descer sem se acidentar, utilizando sua bengala branca. No registro, as pessoas de maneira geral ignoravam a sua existência, algumas olhavam a situação e simplesmente seguiam. A questão se encerrou no momento em que uma mãe com um bebê num carrinho parou, prendeu o carrinho com segurança e foi ajudar ao homem cego. A situação chama a atenção por diversos motivos.
Das pessoas que por ele passaram, com certeza, a mãe com um bebê em um carrinho seria a menos plausível para ajudar. Talvez por isso tenha se sentido impelida a auxiliá-lo: não devem ter sido poucas as vezes em que precisou de ajuda e foi ignorada pela multidão. Nesse sentido, cria-se o que chamamos de empatia compassiva advinda do compartilhamento da experiência de ser invisibilizada, o que gera uma conexão com suas próprias dores e necessidades, extrapolando a compaixão discursiva ao ativar memórias emocionais que a mobilizou internamente a agir.
Indiferença generalizada
Outro aspecto relevante a ser levantado é como temos vivenciado essa indiferença social. Segundo Byung-Chul Han, a busca por produtividade e sobrevivência tem levado as pessoas a uma indiferença generalizada, pautada na falta de tempo e na falta de energia emocional para lidar com o diferente. Anulamos, assim, qualquer possibilidade de interação autêntica e escolhemos (sem o perceber) a seguir trabalhando, produzindo freneticamente. Precisamos do que Han chama do tempo de permanência, de tempo livre para ser e conviver.
Passamos a exigir cada vez mais de nós mesmos e de nossas crianças de forma tal que se moldem para esse modelo produtivo e explorador. Seguimos sem pensar nas consequências de não enxergar o outro porque nosso único interesse é o quanto aquela pessoa pode ou não, em maior ou menor medida, nos ser útil. Criam-se mentalidades, desde a infância, sustentadas no excesso – informação demais, cursos demais, atividades demais. Onde estaria, nesse contexto, o tempo para permanecer? O tal do ócio pelo ócio? É preciso reagir e entender que há o tempo de não fazer nada além de sentir a nós mesmos (e talvez nos reconhecer novamente) e sentir o mundo e o outro que o habita.
A dissolução dos laços comunitários só poderá ser revertida por meio da educação. É na convivência, na interação, nos espaços e tempos de pertença que podemos criar um contrafluxo no sentido de uma vida que faça sentido em que não somos apenas mais uma peça nesse tabuleiro da vida.




