Florbela Espanca, em seu poema “Pior Velhice” assim descreve a velhice: “Sou velha e triste./Nunca o alvorecer/Dum riso são andou na minha boca!/Gritando que me acudam, em voz rouca,/Eu, Náufraga da Vida, ando a morrer!/(…)Tenho a pior velhice, a que é mais triste,/ Aquela onde nem sequer existe/ Lembrança de ter sido nova… outrora…”. Tal retrato dessa fase da vida é ainda comum para muitas pessoas idosas em todo o mundo, embora se tenha evidências claras de que a velhice de hoje não é mais a velhice de algumas décadas atrás, especialmente quando se trata de camadas da população que têm seus direitos básicos atendidos.
Voltando à fala da poetisa portuguesa, é importante ressaltar que a solidão e o abandono afetivo ainda fazem parte da vida de muitas pessoas idosas, perceptíveis em diferentes níveis e aspectos: são muitas vezes alijadas de processos de convivência profissional por um etarismo que começa a atingi-las já a partir dos cinquenta anos; abandonadas a cuidadores que, por mais competentes que sejam, não substituem o afeto dos entes queridos que vão se afastando à medida que o tempo passa sem paciência para ouvir as histórias já tantas vezes contadas ou os interesses e opiniões de quem já não tem mais espaço nas conversas familiares; distanciadas das amizades que vão se perdendo por morte ou por dependência em sua mobilidade.
Qualidade de vida para envelhecer bem
Não obstante essa situação, embora nem todas as pessoas idosas tenham acesso à qualidade de vida plena, mudaram as expectativas de vida, o atendimento à saúde, os cuidados preventivos, o comportamento, as facilidades de se bem-viver. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, para que se alcance qualidade de vida para envelhecer bem, é crucial cuidar do bem-estar biopsicossocial, do exercício da cidadania e da promoção do envolvimento social, da garantia de direitos e amparo, além de estímulo intelectual constante.
Como se pode ver, é na convivência social que se acessam aspectos basilares para vivenciar a velhice com qualidade. E é exatamente por isso que devemos educar as novas gerações para lidar com essa longevidade.
Sociedade em processo de envelhecimento
Preparar as novas gerações para conviver em uma sociedade em processo de envelhecimento exige muito mais do que adotar um comportamento gentil, mas acima de tudo focar na intergeracionalidade, amplificando e consolidando a criação de vínculos reais e trocas de saberes entre pessoas de diferentes idades. A reflexão sobre esse tema não é nova, estando respaldada pelo Estatuto da Pessoa Idosa, que prevê a inclusão de conteúdos sobre o envelhecimento nos currículos escolares.
Dentre inúmeros aspectos que precisam ser considerados quando se fala em uma educação voltada para convivência intergeracional está a desconstrução de preconceitos que associam as pessoas idosas à improdutividade, a problemas e a doenças.
A superação dessa perspectiva pode se dar de várias maneiras, como apresentar narrativas positivas sobre idosos ativos e engajados em novas possibilidades de vida. Outro aspecto a ser considerado é a adoção de uma linguagem inclusiva em que se adotam termos respeitosos e que valorizem o idoso. A evitação do etarismo se dá, portanto, por compreender que a velhice nada mais é que uma fase da vida, tendo em vista que se não chegarmos a ela, estaremos mortos.




