O Brasil assistiu, nos últimos anos, a algo incomum em sua história recente: um presidente da República que, de forma reiterada e pública, passou a atacar a credibilidade do sistema eleitoral, desacreditar instituições e tensionar abertamente os limites constitucionais. Hoje, diante do avanço das investigações e da responsabilização institucional, o mesmo personagem político tenta reescrever a própria trajetória e se apresenta como vítima de perseguição.
Os fatos são públicos e documentados. Houve ataques sistemáticos às urnas eletrônicas sem apresentação de provas. Houve deslegitimação constante do Tribunal Superior Eleitoral. Houve estímulo reiterado à desconfiança nas instituições. Houve discursos que normalizaram a ideia de ruptura. Nada disso ocorreu em segredo. Tudo foi dito diante de câmeras, microfones e registros oficiais.
Não se trata aqui de especular intenções, mas de reconhecer um dado objetivo: construiu-se deliberadamente um ambiente de instabilidade institucional. Democracias não colapsam apenas por tanques nas ruas. Elas também se corroem quando líderes minam a confiança pública nas próprias instituições que juraram respeitar.
O problema surge quando, após anos alimentando esse ambiente, a narrativa muda radicalmente. O discurso da confrontação dá lugar ao discurso da perseguição. A retórica de força cede espaço à postura de fragilidade. A figura pública que estimulava o conflito passa a reivindicar proteção.
Vitimização estratégica
Mais grave ainda é quando essa vitimização passa a ser utilizada como estratégia política. O mesmo personagem que se apresenta como fragilizado diante de eventuais consequências de saúde e jurídicas aparece, ao mesmo tempo, como plenamente apto para disputar novamente o cargo mais alto da República.
Não se pode sustentar duas narrativas tão incompatíveis com seriedade:
ou se está debilitado a ponto de não suportar uma custódia ainda que em condições dignas, como é seu direito em um Estado de Direito ou se está plenamente capaz de governar um país continental, liderar instituições e representar a nação.
O que se vê é a tentativa de vender ao público uma fragilidade conveniente quando útil e uma força conveniente quando necessária. Não é defesa de direitos fundamentais. É construção calculada de narrativa.
O Estado de Direito exige duas coisas igualmente essenciais:
- – que ninguém seja condenado sem provas e;
- – que ninguém esteja acima da lei.
- Responsabilização jurídica
A responsabilização jurídica, quando feita com base em fatos e dentro do devido processo legal, não é perseguição política. É exatamente o funcionamento das instituições que foram, por tanto tempo, atacadas.
A democracia não se sustenta apenas em regras. Ela se sustenta em responsabilidade pública.
E responsabilidade pública exige consequência.
Diante de tudo o que foi dito, feito e registrado, a pergunta deixa de ser apenas jurídica e passa a ser moral e precisa ser feita com franqueza: não seria mais digno, mais corajoso e mais honrado admitir o que se fez do que seguir explorando o papel de vítima e se fazer de coitado diante do país inteiro? Porque, ao menos, haveria coerência, ao menos, haveria responsabilidade.
Se admitisse, ainda que pelos motivos errados, talvez fosse lembrado como alguém que teve coragem de assumir os próprios atos e seria, inclusive, mais honrado diante daqueles seguidores que ainda acreditam na narrativa fantasiosa construída ao longo dos anos.
Do jeito que está, o que permanece não é coragem é a tentativa permanente de escapar das consequências.




