Na segunda-feira (1 º), conhecemos um trabalho profundamente tocante. O projeto Vocem Muliebris — expressão em latim que significa “Vozes Femininas”— realizado no Colégio Estadual Cora Coralina, em Águas Lindas-GO. Um espaço criado para acolher, ouvir e curar as marcas invisíveis que o dia a dia deixa.
Entre olhares atentos e relatos emocionados, mulheres que carregam a rotina da educação dividem não apenas suas dores, mas também suas forças. O encontro nasceu da sensibilidade da gestora Dione Rouzares, que percebeu a sobrecarga das professoras e teve a iniciativa de mudar a rotina para criar um espaço de escuta.
“Eu via que muitas chegavam cansadas, carregando problemas de casa e da escola. Pensei: se não cuidarmos de quem ensina, como esperar que a sala de aula floresça? Precisávamos de um espaço de respiro, de acolhimento e de cura. Foi isso que me moveu”. Essa decisão rompeu um silêncio que há muito tempo pesava sobre as servidoras.
Escuta que acolhe
A psicóloga Nágela Freitas ligada ao Instituto Ouvir e Acolher, em parceria com Secretaria de Estado da Educação – SEDUC/GO, que acompanha o grupo reforça o impacto da ação: “É um espaço de escuta qualificada com as mulheres, de extrema importância, principalmente no meio escolar. Nós trabalhamos autoconhecimento, autocuidado, saúde mental e prevenção à violência. As servidoras se sentem vistas, acolhidas, e isso repercute não apenas nelas, mas em toda a comunidade escolar.”

As professoras confirmam essa transformação. “Nunca tivemos um diretor com essa preocupação. A Dione percebeu nossa sobrecarga e decidiu parar tudo para que pudéssemos conversar. Isso mudou nossa forma de olhar umas para as outras”, contou Shirley Cristina Aniceto. Outra educadora completou: “Aqui eu não preciso fingir que está tudo bem. Sei que serei acolhida do jeito que eu sou. Se um dia não estiver bem, terei uma rede de apoio.”
Para muitas, o projeto é um divisor de águas. “Antes, cada uma cuidava do seu. Depois dos encontros, passamos a partilhar dores e também alegrias. Isso mudou nossa convivência e nos uniu como nunca”, disse Patrícia Pereira.
Reflexo na escola
A mudança de postura se refletiu dentro e fora das rodas. Houve mais empatia entre colegas e também dentro das salas de aula. Nosso maior legado é mostrar que o cuidado gera transformação. Se cada escola reservar um tempo para ouvir suas mulheres, teremos não apenas melhores professoras, mas comunidades inteiras mais fortes”. Dione Rouzares, gestora
Quando uma colega dizia estar com dor de cabeça, eu já entendia que havia uma história por trás. Passei a olhar diferente, com mais atenção, e isso mudou a forma de lidar tanto com as professoras quanto com os alunos”, relatou Karine Pires.
Hoje, as servidoras se reconhecem como parte de um coletivo mais forte. “Quando uma sofre desrespeito ou preconceito, todas se levantam juntas”, destacou outra participante. Força coletiva
Ao final de cada encontro, fica a certeza de que o Vocem Muliebris vai muito além de um projeto escolar. Ele se consolidou como uma rede de apoio que sustenta, cura e fortalece.
Aqui no Cora Coralina, tudo o que você propõe a fazer, nunca estará sozinha. Sempre haverá uma mulher do seu lado”, resumiu Maria Luiza de Oliveira.

Cínthia Ferreira (E)

Mais do que rodas de conversa, o Vocem Muliebris construiu uma família. No Cora Coralina, ser professora ganhou outro significado: além de ensinar, elas agora se apoiam, se curam e se levantam juntas. E como resume a gestora Dione, que plantou essa semente: “Nosso maior legado é mostrar que o cuidado gera transformação. Se cada escola reservar um tempo para ouvir suas mulheres, teremos não apenas melhores professoras, mas comunidades inteiras mais fortes”.
O desejo das participantes é que essa experiência inspire outras instituições a criar espaços semelhantes. Que cada mulher possa encontrar voz, acolhimento e cuidado. Que iniciativas como essa se multipliquem, semeando esperança e transformação.




