Imagine um adolescente que, ao se deitar à noite, pensa: “A vida não vale a pena.” Agora, imagine que esse mesmo jovem, no dia seguinte, aceita um cigarro oferecido por um amigo. Coincidência? A ciência diz que não.
Um estudo recente, conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Tocantins com base na Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2019), revela uma relação alarmante: adolescentes que sentem frequentemente ou sempre que a vida não tem valor têm até 3,8 vezes mais chances de já ter experimentado cigarro do que aqueles que nunca tiveram esse sentimento.
Mais do que um dado frio, isso expõe um problema profundo e doloroso: o tabaco, para muitos jovens, não é apenas um vício em potencial. É, antes de tudo, um mecanismo de escape frente à desesperança.
O peso de não ver sentido no futuro
A adolescência é um período de intensas transformações. É quando se busca identidade, pertencimento e autonomia. Também é quando a autoestima e a saúde mental são mais frágeis. O estudo mostra que sentir que a vida “não vale a pena” aumenta significativamente a probabilidade de recorrer a comportamentos de risco — e fumar é um dos mais visíveis e socialmente disponíveis.
Quando a vida perde o sentido, o cigarro não é visto apenas como fumaça: é um gesto que preenche, ainda que por instantes, um vazio existencial. E, como aponta a pesquisa, esse alívio é temporário, pode reforçar sentimentos negativos e prender o jovem em um ciclo perigoso.
Família, amigos e escola: onde o risco cresce
O levantamento ajustou os resultados para considerar fatores como idade, sexo, convivência familiar, supervisão dos pais, hábitos dos amigos, saúde percebida e até brigas recentes. Ainda assim, a relação entre desesperança e tabagismo se manteve forte.
O recado é claro: não importa apenas se os pais fumam ou se a escola proíbe o cigarro. O que realmente pesa é como o adolescente enxerga a própria vida. E isso depende, em boa parte, de laços afetivos sólidos, de ambientes inclusivos e de oportunidades de projetar um futuro com possibilidades reais.
Não é só sobre proibir o cigarro
A pesquisa dialoga com uma série de estudos nacionais e internacionais que apontam para o mesmo ponto: prevenir o tabagismo juvenil exige mais do que leis rígidas e advertências nas carteiras de cigarro.
É preciso atacar a raiz do problema — e ela está na saúde mental. Programas que estimulam o autoconhecimento, geram pertencimento e incentivam a construção de um projeto de vida mostram resultados promissores no fortalecimento da autoestima e na redução de comportamentos autodestrutivos.
A boa notícia é que já existem caminhos. Iniciativas que envolvem família, escola e comunidade — de rodas de conversa a oficinas culturais e esportivas — têm potencial para mudar realidades. Mas exigem vontade política, recursos e, principalmente, escuta ativa dos jovens.
Nossa escolha como sociedade
Ignorar a desesperança adolescente é permitir que a indústria do tabaco, ainda que indiretamente, encontre novos consumidores. A curto prazo, a nicotina oferece sensação de alívio. A longo prazo, cobra com juros: dependência, doenças e vidas abreviadas.
O estudo da UFT nos lembra de um ponto simples, mas poderoso: quando damos valor à vida dos nossos jovens, eles mesmos passam a valorizar mais a própria vida. Isso significa oferecer não só políticas de controle do tabaco, mas também políticas de construção de sentido — algo que não cabe em uma cartilha técnica, mas nasce no diálogo, na compreensão e na oferta real de perspectivas.
Se queremos menos cigarros queimando nas mãos de adolescentes, precisamos começar apagando o incêndio invisível que queima por dentro: a perda de sentido.
Saúde pública não é só hospitais e remédios. É também esperança, autoestima e espaços de pertencimento. Sem isso, qualquer outra medida será, como a fumaça do cigarro, apenas um alívio temporário.
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