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A sociedade do desempenho e o esgotamento da alma

A saúde mental começa onde termina a culpa de não ser perfeito

Rodrigo Santana
Por Rodrigo Santana  - Psicólogo 3 Min Leitura
3 Min Leitura
O excesso de metas e cobranças pode transformar o cotidiano em uma corrida sem pausa Imagem: Freepik
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Quantas vezes você cumprimenta uma pessoa e ela responde: “Tudo bem, na correria!” E quantas vezes você já sentiu que vive correndo, mas não sabe bem para onde? Que o dia termina e, mesmo exausto, a sensação é de não ter feito o suficiente?

Essa angústia silenciosa, na verdade pode ser reflexo de uma época em que a felicidade virou meta e o cansaço, rotina. Vivemos na “sociedade do desempenho”, onde ser humano parece sempre um projeto inacabado.

Há dias em que acordamos já cansados, mesmo antes de o dia começar. O celular vibra, os e-mails se acumulam, o relógio parece correr. Entre o café e o primeiro compromisso, já estamos mentalmente exaustos. Mas seguimos porque parar soa como fraqueza.

É nesse ponto que a “sociedade do desempenho”, descrita por Byung-Chul Han, revela sua face mais cruel: ela nos transformou em máquinas do próprio sucesso. É comum entendermos que vivemos em uma cultura onde o “podemos tudo” e que isso virou uma forma sutil de cobrança. E não é somente por questões de trabalho, virou moda a gente estipular meta de “estar por dentro da série da moda”, fazer a dieta do “momento”, quebrar recordes de desempenho nas atividades físicas, estar sempre disponível para a próxima atividade e por ai vai…

Direito de ser imperfeitos

Já não há patrões gritando ordens somos nós que nos cobramos, que nos comparamos, que nos punimos. A promessa de liberdade virou a prisão da autoexigência. E, em nome dessa liberdade, aceitamos viver sem descanso, sem pausa, sem perdão. Estamos todos vivendo dentro de um mesmo drama: tentar provar, o tempo todo, que somos suficientes.

Só que a mente reclama! O cansaço não é preguiça é sintoma. Ao negar o descanso, negamos também a capacidade de sentir, de elaborar, de existir. Talvez o caminho esteja em recuperar o direito de ser imperfeito. Permitir-se errar, perder-se, atrasar-se, respirar.

A saúde mental começa onde termina a culpa de não ser perfeito. E, quem sabe, a verdadeira coragem neste século seja viver em um ritmo humano sem pressa, com presença. Olhar o tempo não como inimigo, mas como aliado. Estar inteiro em uma conversa, em um pôr do sol, em um silêncio.

No fundo, o que todos buscamos não é desempenho é pertencimento, humanidade. E isso, felizmente, não se mede em gráficos, mas em respiros, momentos e boas memórias.

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Posted by Rodrigo Santana Psicólogo
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Psicólogo, mestre em Saúde Pública e doutorando em Governança e Transformação Digital
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