O acidente vascular cerebral (AVC) continua sendo uma das maiores urgências médicas do país e uma das principais causas de morte entre os brasileiros. Entre janeiro e outubro deste ano, 64.471 pessoas morreram em decorrência da doença — o equivalente a uma vida perdida a cada seis minutos. Em 2024, foram 85.457 óbitos, segundo o Portal da Transparência dos Cartórios de Registro Civil, número que mantém o Brasil entre os países com maior carga de AVC.
Além do impacto humano, o custo também é elevado. Entre 2019 e setembro de 2024, o tratamento de pacientes com AVC consumiu R$ 910 milhões do sistema hospitalar, com mais de 85 mil internações. Um em cada quatro pacientes precisou de leito de UTI, de acordo com a consultoria Planisa.
Oito em cada dez casos são evitáveis
Segundo o Ministério da Saúde e a Sociedade Brasileira de AVC (SBAVC), 80% dos casos poderiam ser prevenidos com medidas simples, como controlar a pressão arterial, praticar exercícios físicos e abandonar o tabagismo.
Os principais fatores de risco são hipertensão, diabetes, obesidade, sedentarismo, tabagismo e colesterol alto. “O AVC é súbito e devastador, mas a maioria dos casos é evitável. O problema é que fatores como hipertensão e cigarro ainda são mal controlados”, explica o neurocirurgião Hugo Doria, do Hospital Santa Catarina.
“Controlar a pressão arterial é o fator mais importante — e o mais negligenciado. A hipertensão é silenciosa, mas responde muito bem ao tratamento quando há adesão e acompanhamento médico”, reforça o especialista.
Tipos de AVC
O AVC pode ser isquêmico, que representa 85% dos casos, causado pelo entupimento de um vaso que leva sangue ao cérebro; ou hemorrágico, que ocorre quando há ruptura de um vaso, provocando sangramento no tecido cerebral.
“Durante o AVC isquêmico há um bloqueio na artéria, levando à falta de sangue e morte das células cerebrais. Já no hemorrágico, o sangue extravasa por ruptura de um vaso”, explica o neurocirurgião Feres Chaddad, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e chefe da neurocirurgia da Beneficência Portuguesa de São Paulo.
Jovens também estão em risco
Antes associada aos idosos, a doença vem afetando cada vez mais adultos jovens. A incidência de AVC isquêmico cresceu 66% entre brasileiros com menos de 45 anos na última década, segundo a SBAVC.
“O estilo de vida mudou: há mais obesidade, sedentarismo, cigarro eletrônico, uso de anticoncepcionais e dietas desbalanceadas. Esse conjunto eleva a pressão e inflama os vasos, antecipando o aparecimento da doença”, afirma o neurocirurgião Orlando Maia, do Hospital Quali Ipanema.
Entre os fatores que mais contribuem para o aumento de casos em jovens estão doenças cardíacas, uso combinado de anticoncepcionais e tabagismo — que pode multiplicar em até dez vezes o risco de AVC — e o uso de anabolizantes e testosterona.
“Nas mulheres, a combinação de enxaqueca com aura, anticoncepcional e cigarro é especialmente perigosa. Entre os homens, o abuso de estimulantes hormonais em academias se tornou uma nova preocupação”, alerta Chaddad.
“Tempo é cérebro”: cada minuto cont
Os sintomas do AVC surgem de forma súbita e exigem atendimento imediato. Entre os sinais de alerta estão sorriso torto, fraqueza em um dos lados do corpo, dificuldade para falar, dor de cabeça intensa, perda de visão e tontura.
O teste “SAMU” ajuda a identificar rapidamente os sintomas:
- Sorriso: peça para a pessoa sorrir; se um lado do rosto não mexer, é alerta.
- Abraço: veja se ela consegue levantar os dois braços.
- Música: peça para repetir uma frase simples.
- Urgente: ligue 192 imediatamente.
“Costumo dizer que tempo é cérebro, porque a cada minuto milhares de neurônios morrem ou deixam de se recuperar”, alerta Chaddad.
O tratamento precisa começar em até quatro horas após o início dos sintomas e pode envolver medicamentos trombolíticos ou procedimentos de trombectomia mecânica, que removem o coágulo.
Diagnóstico e reabilitação
O diagnóstico é feito por tomografia ou ressonância magnética, que permitem identificar a área afetada e o tipo de AVC.
Com atendimento rápido e reabilitação multidisciplinar — que envolve fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional — muitos pacientes conseguem recuperar funções perdidas.
“O cérebro tem uma capacidade de adaptação impressionante, especialmente nos primeiros meses após o evento”, destaca Doria.
Mas o alerta dos médicos é unânime: prevenir ainda é o melhor tratamento. “Os avanços são grandes, mas nada é tão eficaz quanto evitar o primeiro AVC”, resume o especialista.




