Falar sobre saúde mental na infância ainda é um desafio. Muitos adultos carregam a crença de que crianças são “protegidas” dos sofrimentos emocionais, como se a fase da vida marcada por brincadeiras e descobertas fosse imune a angústias e medos. No entanto, os números mostram o contrário: cuidar da mente desde cedo é tão essencial quanto cuidar do corpo.
Sinais de alerta
Quando pensamos em saúde mental infantil, não falamos apenas de doenças psiquiátricas. Falamos de sofrimento emocional, de dificuldades que podem se manifestar de forma sutil. Mudanças repentinas de humor, irritabilidade excessiva, alterações no sono ou no apetite e até regressões comportamentais — como voltar a fazer xixi na cama ou não querer se separar dos pais — podem ser sinais de alerta.
Esses sinais, quando negligenciados, podem evoluir e gerar impactos profundos na vida escolar, social e familiar da criança. É por isso que a atenção de pais e professores é fundamental: são eles que estão em contato direto com a criança e podem perceber mudanças sutis antes que elas se agravem.
O pediatra, nesse cenário, tem um papel estratégico. Nas consultas de rotina, além de acompanhar peso, altura e vacinas, ele deve orientar os pais sobre comportamento, hábitos e rotina, ajudando a identificar sinais precoces de sofrimento mental. A escuta atenta e a valorização do relato dos cuidadores fazem a diferença.
Aumento do risco de adoecimento emocional
É preciso destacar também os fatores externos que aumentam o risco de adoecimento emocional. O uso excessivo de telas, por exemplo, tem sido associado à ansiedade, a alterações de sono e isolamento social. O bullying, seja presencial ou virtual, representa uma agressão silenciosa que mina a autoestima das crianças. Além disso, a ausência de uma rotina saudável, com horários para dormir, brincar, estudar e se alimentar, fragiliza o equilíbrio emocional.
Estratégias de prevenção
Promover saúde mental na infância não é apenas tratar sintomas: é investir em prevenção. E isso passa por estratégias simples e poderosas, como garantir momentos de brincadeira, estimular a criatividade, preservar o sono adequado e fortalecer vínculos afetivos, tanto com os seus pares quanto com seus pais, cuidadores, avós e irmãos. Crianças que se sentem amadas e ouvidas têm mais recursos internos para enfrentar os desafios da vida, e aprendem a lidar com as frustrações de forma mais equilibrada.
É igualmente importante lembrar que a saúde mental infantil não deve ser tratada como um tema tabu. Assim como levamos nossos filhos ao pediatra para tratar uma gripe ou acompanhar o crescimento, devemos buscar ajuda profissional quando surgem sinais de sofrimento emocional. Falar sobre o assunto não fragiliza; ao contrário, fortalece, e, nesses casos, a ajuda do neuropediatra, do psicólogo e por vezes do psiquiatra da infância se faz necessária para a resolução dos problemas.
A infância é uma fase de construção. Uma criança bem assistida emocionalmente terá mais chances de se tornar um adulto saudável, resiliente e capaz de lidar com as adversidades. Quando negligenciamos esse cuidado, corremos o risco de perpetuar dores silenciosas que podem culminar em consequências graves.
Setembro Amarelo nos sinaliza a necessidade de investirmos na saúde mental desde bebês e crianças até nossos pré-adolescentes, visando à detecção de alterações psicoemocionais, bem como à prevenção do autoextermínio.
Prevenir começa no diálogo, na escuta e no olhar atento para as crianças que muitas vezes não sabem expressar em palavras o que sentem. Cuidar da saúde mental infantil é um compromisso coletivo: família, escola, pediatras e sociedade. Quando cada um faz a sua parte, construímos não apenas um presente mais saudável, mas também um futuro de esperança para nossas crianças.




