O tribunal brasileiro ainda se inquieta quando uma mãe decide falar. Não importa se fala da violência que sofreu, da sobrecarga que carrega sozinha, do abandono paterno que se repete como rotina, ou da necessidade de alimentos para manter seus filhos. Quando uma mãe fala, a resposta institucional raramente é a escuta, mas desconfiança. É rótulo. É silêncio. É punição.
Estigmas
A justiça de família se acostumou a reagir com prontuários de estigmas. Mães que denunciam abusos são acusadas de inventar histórias. As que reclamam da exaustão são vistas como desequilibradas. As que pedem partilha justa ou indenização pela sobrecarga são tachadas de interesseiras. A palavra materna, longe de ser reconhecida como testemunho de quem sustenta a vida no cotidiano, é transformada em ameaça.
O que tanto assusta no discurso das mães? Assusta que ele desnuda a contradição central do sistema onde a família só se mantém porque as mulheres assumem, sem reconhecimento e sem proteção, o peso da reprodução social. Assusta que essa voz revele que a neutralidade jurídica é uma ficção, usada para perpetuar privilégios masculinos e manter as mulheres em posição de dívida eterna. Escutar as mães seria admitir que a ausência paterna não é exceção, mas regra. Que a sobrecarga não é acidente, é política. Que o lar, tão romantizado, é também espaço de violência.
Desigualdade estrutural
É por isso que as mães incomodam. Porque não falam apenas de si. Cada denúncia de abuso, cada relato de sobrecarga, cada petição por alimentos ou moradia ecoa como denúncia coletiva, não é uma mulher isolada, são milhares. O medo do Judiciário é justamente esse, reconhecer que as mães não são casos individuais, mas o retrato de uma desigualdade estrutural que ele mesmo ajuda a reproduzir.
Justiça cega
Enquanto a palavra materna seguir sendo recebida como delírio ou vingança, a justiça continuará cega para o essencial onde não há proteção integral de crianças sem proteção das mulheres que as criam. Não há igualdade possível enquanto o sistema se recusar a ouvir as mães sem antes tentar silenciá-las.
O direito das famílias teme nas mães aquilo que deveria proteger, a verdade nua da desigualdade. E enquanto continuar fugindo dessa verdade, continuará sendo mais parte do problema do que da solução.




