O que pareciam ser dois casos distintos as denúncias de fraudes em empréstimos consignados do INSS e a liquidação extrajudicial do Banco Master pelo Banco Central são, em verdade, faces de uma moeda dentro de um “porquinho de moedas fraudadas”. As investigações da Polícia Federal e da CPMI do INSS revelam uma simbiose operacional e financeira: o mesmo esquema de irregularidades que prejudicou aposentados e pensionistas do INSS foi replicado e multiplicado para maquiar o balanço do Banco Master, criando ativos fictícios e lavagem de dinheiro em níveis altíssimos. A conexão das operações é um dos pontos importantes para visualizar e mapear a maior fraude bancária da história do Brasil.
Ponto de partida: a “máfia do INSS” e os empréstimos fantasmas
O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) identificou um volume anormal de reclamações de aposentados sobre descontos que não reconheciam em seus benefícios. Ao investigar, se deparou com um cenário caótico envolvendo também no foco do problema o Banco Master.
Entre outubro de 2021 e setembro de 2025, o Master realizou centenas de milhares de operações de crédito consignado. No entanto, quando o INSS solicitou a documentação comprobatória, o banco simplesmente não a apresentou. Dados oficiais mostram que dos 324.849 contratos ativos em outubro de 2025, mais de 250 mil não tinham qualquer comprovação de regularidade, o que representa aproximadamente 75% de sua carteira.
A análise dos poucos documentos entregues revelou um padrão de irregularidades graves:
⦁ Contratos Genéricos: Eram padronizados, sem informações essenciais e personalizadas como nome do beneficiário, valor contratado, taxa de juros ou número de parcelas.
⦁ Assinaturas Falsas: As assinaturas eletrônicas dos aposentados não possuíam o QR Code de verificação, impossibilitando a comprovação de que o consentimento era legítimo. Na prática, o banco não conseguiu provar que o aposentado havia, de fato, contratado o empréstimo.
⦁ Expansão Agressiva e Irregular: A auditoria interna do INSS concluiu que o Banco Master promoveu uma expansão agressiva de sua carteira de crédito, resultando em um número expressivo de operações “desprovidas do devido lastro documental”.
Diante dos indícios claros de fraude acima descritos, foram tomadas medidas mais que óbvias: a não renovação do acordo de cooperação que permitia ao banco oferecer novos empréstimos. Em novembro, o bloqueio preventivo de cerca de R$ 2 bilhões em repasses referentes a aproximadamente 254 mil contratos suspeitos, valores que estavam retidos nos cofres públicos e não seriam pagos ao banco até que a autenticidade das assinaturas fosse comprovada.
Fraude como “modelo de negócio”
Paralelamente às investigações do INSS, o Banco Master enfrentava outro foco claro de fraude e lavagem de dinheiro. Em novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição. O motivo? A criação de carteiras de crédito e ativos fictícios para inflar artificialmente seu patrimônio.
E é aqui que as investigações se cruzam de forma efetiva. A Polícia Federal, por meio de seus investigadores, apresenta indícios de autoria e materialidade de que os empréstimos consignados fraudulentos do INSS não foram um caso isolado de má gestão, mas sim uma das ferramentas usadas para maquiar as finanças do banco. Esses contratos sem lastro (sem a comprovação real da dívida) eram contabilizados como ativos, ou seja, como dinheiro a receber, anabolizando, de forma fraudulenta, o balanço da instituição e atraindo investidores.
A conexão ficou ainda mais evidente quando se descobriu que o Banco de Brasília (BRB) havia negociado a compra de parte dessas carteiras de crédito do Master. Após a liquidação do banco, representantes do BRB procuraram o INSS para pedir a liberação dos R$ 2 bilhões bloqueados, alegando que os créditos agora eram seus. O pedido foi imediatamente negado pelo INSS: “Eu não posso repassar esses valores para eles (BRB) porque eu não tenho a comprovação de que esse crédito existe”.
Ou seja, o BRB, adquiriu dívidas que, na prática, não existiam ou não podiam ser comprovadas. Isso aprofunda a crise e expande o leque de investigados, que agora incluem não só o controlador do Master, Daniel Vorcaro, mas também o BRB, que adquiriu esses e outros ativos podres.
A simbiose das investigações: onde a PF e a CPMI atuam
A Polícia Federal, ao cruzar os dados das duas frentes, busca demonstrar que o modus operandi era o mesmo. As principais linhas de investigação incluem:
1. Lavagem de Dinheiro: a suspeita é que o dinheiro desviado de aposentados (através de descontos indevidos) e os recursos obtidos com a venda de ativos fictícios tenham sido integrados ao sistema financeiro por meio de operações falsas, caracterizando lavagem de dinheiro.
2. Gestão Fraudulenta: a criação deliberada de centenas de milhares de contratos sem a devida comprovação configura, na visão dos investigadores, uma gestão temerária e fraudulenta, com o objetivo de enganar o INSS, o Banco Central e o mercado.
Um alívio em meio ao caos
Para os aposentados e pensionistas que tiveram descontos indevidos, a notícia foi um alívio frente ao que se apresentava como fraude sem qualquer opção de recuperação do dinheiro roubado. Os contratos suspeitos serão cancelados e os valores descontados desde setembro de 2025 serão integralmente devolvidos aos segurados. O INSS recomendou que os beneficiários que identificarem descontos do Banco Master em seu benefício procurem a ouvidoria do INSS para registrar uma reclamação formal, auxiliando no processo de apuração.
Em suma, a “simbiose” entre as operações revela que a fraude contra os cofres do INSS e contra os aposentados foi, junto com a fraude no BRB e algumas outras fraudes detectadas, propulsores que impulsionaram e sustentaram as operações fictícias do Banco Master. Desvendar essa teia é o principal objetivo dos policiais federais, que agora trabalham para conectar todos os elos dessa complexa corrente financeira e criminal.




