A entrevista exclusiva do Jornal Capital Federal desta semana apresenta a trajetória de Tamara Vizioli, Vice-presidente do PSD Mulher no Distrito Federal. Sua história não começa na política nem nos projetos sociais, mas dentro de casa, na experiência que mudaria completamente o rumo de sua vida: a maternidade atípica. Agora, esse caminho ganha um novo capítulo. Tamara se prepara para entrar na vida pública como pré-candidata a deputada distrital, levando para o debate político a defesa da neurodiversidade e da inclusão social.
Neurocientista comportamental, neuroarquiteta, empreendedora social e fundadora do Instituto SOZO Miguel Castro Vizioli, Tamara carrega uma trajetória marcada por deslocamentos pelo mundo e por um olhar sensível sobre desenvolvimento humano, inclusão e diversidade.
Antes de falar sobre política, ciência ou projetos sociais, ela prefere se definir de forma simples. Quando perguntada sobre quem é a Tamara fora das câmeras, palestras e cargos públicos, responde com sinceridade:
Eu sou prudente como uma pomba, mas eu sou sagaz como uma serpente. Eu estou aprendendo, nesse exato momento, quase com 49 anos, a viver. Eu amo olhar para o mundo e ver cores, eu gosto de pessoas. Eu sou uma mulher de verdade.”
nasce uma mãe atípica
O Miguel nasceu nos Estados Unidos. Com seis meses o médico chegou e falou: você sabe o que significa síndrome de Asperger? Eu falei: não sei o que é isso. Eu pensei: está doente? Tem cura?”
A partir dali, ela mergulhou em um universo totalmente novo.
De repente eu entro num mundo totalmente diferente e doído. Um mundo sem formação, sem bula, porque não tinha onde olhar, não tinha manual. E ali começa a minha luta.”
Tamara lembra que a primeira reação foi o luto, sentimento comum entre muitas mães no momento do diagnóstico.
A primeira reação foi um luto sim.”
Mas com o tempo ela compreendeu que a maternidade atípica exige uma construção diária.
Eu não tenho superpoderes. Eu sou uma mãe que luta todo dia para descobrir um pouquinho a mais.”

Aprendizados pelo mundo
A trajetória da família também passou por diferentes países, como Abu Dhabi, onde novos desafios surgiram.
“Lá fora eu vejo que eles estão bem mais preparados do que a gente. Eles têm a ciência a favor deles.”
Mas, para ela, o maior aprendizado foi perceber como as pessoas são tratadas.
Lá eles não são números, lá eles são pessoas.”
Segundo Tamara, a inclusão precisa considerar que o autismo acompanha a pessoa ao longo de toda a vida.
O autismo não vai sumir quando você for adolescente, nem quando você for adulto, nem quando você for velho. Ele vai caminhar com você.”
Ao longo do tempo, Tamara passou a enxergar no próprio filho algo que mudou sua perspectiva.
Um episódio em especial marcou essa virada.
Teve um dia que ele chegou para mim e falou: mamãe, posso te falar uma coisa? Eu falei: pode. Ele disse que via coisas, escutava coisas. E de repente começou a falar comigo em inglês pela primeira vez. Ali eu pensei: uau, isso aqui é potencial.”
Foi nesse momento que ela passou a enxergar a neurodiversidade de outra forma.
A defesa da neurodiversidade também levou Tamara à atuação pública. Hoje ela participa da política e levanta a bandeira da inclusão.
Para ela, a sociedade ainda precisa avançar muito nesse debate.
A gente precisa preparar a sociedade. Porque a sociedade não sabe como lidar.”
Na avaliação dela, inclusão envolve educação, saúde mental, estrutura urbana e políticas públicas consistentes.
A gente precisa preparar a cidade, o transporte, a escola. Não tem como fugir disso.”
O nascimento do Instituto SOZO
Da experiência pessoal surgiu também o Instituto SOZO Miguel Castro Vizioli.
A proposta do instituto vai além da assistência social. A ideia é criar oportunidades reais para pessoas neurodivergentes.
A bandeira do instituto é capacitar e empregar os neurodivergentes. A gente capacita dentro do presídio também. Muitas dessas pessoas nunca foram diagnosticadas.”
Outro foco é apoiar mães que não conseguem trabalhar porque precisam dedicar tempo integral ao cuidado dos filhos.
A cápsula do tempo
A entrevista terminou com um momento inesperado e emocionante. Ao final da conversa, Tamara foi convidada a imaginar uma espécie de cápsula do tempo, deixando uma mensagem para ser aberta daqui a 20 anos, direcionada ao filho Miguel e também a todas as pessoas neurodivergentes.
A resposta veio carregada de emoção e arrancou lágrimas de quem acompanhava a gravação.
O recado é: a gente não desistiu. Realmente deu tudo certo. A gente plantou e agora a gente está colhendo. A gente fez tudo isso para vocês. Então aproveitem esse mundão que ficou aí para vocês”, concluiu ela, emocionada e em meio às lágrimas.




