Costumo refletir e dialogar com os mais próximos, que viver nos anos 80 e 90 era experimentar um tempo em que as relações humanas tinham textura!
A impressão que tenho é que as amizades nasciam da convivência, não do algoritmo. As parcerias se construíam na troca do dia a dia, e o amor ao próximo não era um gesto raro era parte do cotidiano.
Havia laços feitos de presença, e não de conexão digital. O contato com o outro era direto, imperfeito, autêntico. Não tínhamos como achar o outro no app de localização, mas tínhamos a arquitetura de marcar num determinado horário, ou até mesmo de combinar um ponto de encontro (inclusive um ponto futuro, caso a gente perdesse a hora!). O mundo analógico, limitado em recursos, parecia mais rico em vínculos, de estratégias e de repertório comportamental. Hoje, por mais paradoxal que pareça, temos acesso a tudo e pertencimento a nada. É como se tudo que a gente imaginava inventar, fosse o nosso maior flagelo!
Epidemia de distanciamento
A revolução tecnológica dos últimos 20 anos trouxe um universo de possibilidades mas também uma epidemia silenciosa de distanciamento. Conversamos mais, escutamos menos. Compartilhamos cada instante, mas vivemos poucos. Nossas relações se tornaram rápidas como a rolagem de uma tela: intensas por segundos, esquecidas minutos depois. Muitas vezes descartáveis…
O interesse genuíno foi substituído pelo engajamento. Transformamos a autenticidade das nossas imperfeições em alguns casos, versões pasteurizadas e preparadas para a nova “trend” da semana. Tornamo-nos avatares de nós mesmos, projetando versões ideais em busca de aprovação.
Microuniverso das telas
A empatia, tão natural em tempos de vizinhança e convivência, cedeu espaço à indiferença da pressa, no microuniverso das nossas telas e do impacto mundial das nossas postagem (que diga-se de passagem, funciona para poucos).
Ainda assim, o passado não deve ser visto como refúgio, mas como referência. Resgatar a essência dos anos 80 e 90 é recuperar nossa capacidade de sentir, de olhar nos olhos, de reconhecer o outro como extensão de nós. Revisitar o valor da amizade, da palavra e da solidariedade é um gesto político e profundamente humano.
Presença X conexão
Num mundo que confunde presença com conexão, talvez o verdadeiro progresso seja reaprender a cuidar. Cuidar dos laços, das pessoas e de si mesmo. Porque, afinal, nenhuma revolução tecnológica substitui o poder de um gesto sincero aquele que, nas décadas passadas, ainda bastava para nos lembrar de quem éramos.
Vamos aproveitar esse mar de possibilidades que temos, as diversas formas de acesso, para imergirmos em relações concisas, com verdade e com intensidade. Temos a oportunidade em mãos e tecnologias que facilitam, apenas precisamos lembrar da nossa essência ou ensinar aos mais novos como era o mundo onde o contato genuíno era melhor que o engajamento virtual!




