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Saúde mental: os impactos do teletrabalho

Estabelecer, pactuar e comunicar limites, de forma clara e respeitosa é um ato de autocuidado

Rodrigo Santana
Por Rodrigo Santana  - Psicólogo 4 Min Leitura
4 Min Leitura
Limites claros preservam mente, corpo e relações Imgagem: Freepik
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Quando as notificações não param e a tela do computador parece que nunca vai desligar, as pessoas sentem que o trabalho “invadiu” a casa e que aos poucos também invadirá suas mentes. É fato que o teletrabalho trouxe ganhos reais, deu autonomia para as pessoas ajustarem seus tempos e movimentos, organizarem melhor suas agendas, trouxe qualidade de vida, diminuiu o tempo no trânsito e outras inúmeras vantagens.

Disponibilidade permanente

O grande problema é que esta modalidade abriu a porta para um fenômeno silencioso: a disponibilidade permanente! Quando aquele zap chega às 22h, não é apenas o celular que vibra; basicamente o corpo inteiro responde, como se estivesse em estado de alerta e com a necessidade imediata de atender um comando. Um plantão mental, naturalmente condicionado, mesmo que a pessoa esteja sentada no sofá.  

Esse plantão mental, tem um custo emocional que pode ser prejudicial. O limite entre “estar em casa” e “estar trabalhando” pode ficar meio borrado, e o cérebro pode deixar de identificar momentos claros de pausa e recuperação. A pessoa fecha o computador, contudo, segue respondendo mensagens, resolvendo “apenas mais essa coisinha aqui” e pode acabar levando essas preocupações para o jantar e até mesmo para sua cama.

Sinais de sobrecarga

Com o tempo, alguns sintomas podem começar a se manifestar como a irritabilidade, o cansaço constante, dificuldade de concentração, alterações no sono e até mesmo sensação de culpa por considerar que não está fazendo o suficiente. Sinais de sobrecarga.
Neste sentido, falar em equilíbrio não é luxo, mas uma necessidade de saúde mental. Um primeiro passo consiste em colocar os limites e fronteiras visíveis, dentro da sua casa. Organizar um horário claro para encerrar os trabalhos, silenciar as notificações, pactuar com os colegas e chefias. Essas medidas irão organizar melhor para o cérebro entender que o dia terminou. Pequenos ajustes e rituais de “fechamento”, guardar os equipamentos de trabalho, se organizar pra alguma atividade física ou de lazer, funcionam como um sinal simbólico que o modo trabalho foi desligado no dia.

Outro ponto fundamental, é a criação de um repertório comportamental para dizer “não” a demandas que sistematicamente invadem o tempo pessoal. Ponto delicado no processo de trabalho, pois os ambientes podem ser competitivos, de muita pressão, mas é fundamental entender que tudo na vida tem um custo e que não ter limites pode recair sobre o corpo, na saúde mental e até mesmo nas relações familiares. Estabelecer, pactuar e comunicar limites, de forma clara e respeitosa, além de valorizar o caráter profissional de atuação, é um ato de autocuidado e a longo prazo terá impacto positivo, inclusive para a produtividade.

Cuidar da vida pessoal, da saúde mental em contrapartida, não é um “prêmio” que vem só depois que todo o trabalho acaba; é condição para que o trabalho se mantenha sustentável. Buscar equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, especialmente no contexto do teletrabalho, é um processo contínuo, não uma meta perfeita. Haverá dias de desequilíbrio e urgências, mas o que faz diferença é a direção escolhida: caminhar para uma rotina em que o trabalho é parte da vida, e não o centro absoluto dela.

Ao ajustar limites, cuidar do corpo e da mente e proteger momentos de presença com quem importa, cada um se torna protagonista da própria saúde. E esse protagonismo é, em si, um gesto de respeito consigo que nenhuma mensagem fora de hora deveria ter o poder de interromper.

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Posted by Rodrigo Santana Psicólogo
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Psicólogo, mestre em Saúde Pública e doutorando em Governança e Transformação Digital
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