Já ouvimos tantas e tantas vezes o quanto o ser humano é um ser social. Essa capacidade, ou necessidade, de interagir com o outro se dá por meio da comunicação. A questão que trago hoje diz respeito à qualidade desse exercício interativo em nosso cotidiano. Em tempos permeados pela mediação da tecnologia, alteramos nossa forma de comunicar e de perceber o outro por meio de sua comunicação. Vivenciamos uma alta conectividade, posto que são muitos os interlocutores presentes em um só evento nas redes sociais, por exemplo. E, ao mesmo tempo, há um processo de individuação em que as conversas não se aprofundam ou consideram o indivíduo em sua alteridade.
A título de exemplo desse novo contexto comunicacional que vivenciamos está a superficialidade das interações e a massificação das ideias em que vemos uma repetição do que uns produzem, sem qualquer crivo crítico que leve ao questionamento ou mesmo que agregue novos elementos ao diálogo. Muito disso se deve à incapacidade de ler, compreender, interpretar… Há também a questão de que o consumo do que se lê se dá por meio de algoritmos que selecionam o que pode ou não nos interessar, nos deslocando para bolhas ideológicas que nos impedem de ler diferentes posições e estabelecer contrapontos. Atividade que, sem dúvida, contribui para a formação de opinião mais consistente.
Comunicação sinestésica
Para além dessas questões, podemos citar inúmeras situações em que a comunicação não se concretiza de fato, nem quando nos encontramos presencialmente. Podemos citar, como exemplo, a incapacidade de perceber a comunicação sinestésica. Já não observamos o olhar, os gestos, a postura corporal de maneira adequada. A linguagem verbal se sobrepõe à linguagem não verbal, restringindo as possibilidades de compreensão do todo.
No mundo virtual, a dinamicidade da comunicação nas redes sociais não permite que se analise a congruência entre palavras, sons (fundo musical) e imagens. É tudo muito rápido e já não conseguimos manter o foco no que o outro diz de maneira completa.
Todo esse contexto impacta fortemente nas formas como nos comunicamos com o outro em nosso cotidiano. Se observarmos bares, restaurantes, parques, muitos são os que se desligam do mundo presente e permanecem plugados ao celular. Educar nossas crianças e adolescentes passa necessariamente por impedir o uso abusivo de telas e propiciar momentos de diálogo aberto, franco e leve, de maneira que possam usufruir de momentos de interação real, estabelecendo laços afetivos e compreendendo que nossas vidas vão muito além de um aparelho celular. Falar de desenvolvimento de habilidades e de competências socioemocionais implica o desenvolvimento das competências conversacionais, que nos permitem argumentar, aprender, explorar nossas emoções, sermos empáticos.




