A liberdade nem sempre chega fazendo barulho. Às vezes, ela se revela em encontros simples, quase silenciosos, mas carregados de significado. Foi assim que conheci Tali e Vanessa, criadoras do projeto Livre Jornada. O encontro aconteceu em uma passagem por Brasília, na Concha Acústica, enquanto vendiam brigadeiro para seguir viagem.
Ali, longe de qualquer cenário idealizado, estavam duas mulheres sustentando o próprio caminho com trabalho e coragem. A conversa foi breve, mas reveladora. Ficou claro que aquela não era apenas uma forma de renda momentânea. Era uma travessia. Um projeto de vida em movimento, construído com escolhas conscientes e disposição para enfrentar o inesperado.
A decisão de viver na estrada não veio de imediato. Ela foi sendo confirmada no percurso. Segundo elas, tudo começou com uma viagem teste por Santa Catarina, que durou 40 dias.


Foi ali que entendemos que não era só uma viagem. A vida na estrada nos colocava à prova de um jeito que uma vida comum dificilmente colocaria. Sempre digo que somos duas pedras sendo lapidadas pela jornada”, afirma Vanessa.
Desde então, o caminho passou por Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal. Cada lugar deixou marcas próprias, mas um deles se destacou de forma especial.
O Pantanal, no Mato Grosso do Sul, nos marcou pela intensidade. É um lugar de muita força, realmente selvagem. Aquilo muda a gente”, diz Tali.
Sustentar o sonho
No início da jornada, as duas ainda mantinham vínculos tradicionais de trabalho. Vanessa era CLT e Tali atuava como social media. Com o tempo, perceberam que a rotina com horários fixos limitava a experiência da viagem e as impedia de viver plenamente o que tinham escolhido.
Fomos testando outras possibilidades até entender que era possível custear a vida na estrada com a venda de doces. Hoje, é isso que nos leva mais longe”, explica Vanessa.
Mais do que uma fonte de renda, o brigadeiro se tornou símbolo de autonomia e de continuidade. Um trabalho simples, feito com as próprias mãos, que viabiliza o movimento e sustenta o projeto dia após dia.

A estrada também trouxe uma descoberta profunda sobre quem elas são como mulheres. Antes de partir, ouviram todo tipo de alerta e preconceito.
Quando dizíamos que iríamos viver viajando de kombi, escutávamos que era perigoso demais para duas mulheres. Falavam de violência, de medo, de que deveríamos ficar em casa. Aos poucos, percebemos que o mundo é muito melhor do que o medo que vendem por aí”, afirma Tali.
A experiência mostrou que, apesar dos riscos, a maioria das pessoas é boa e solidária. Mostrou também que a força feminina vai muito além do que costuma ser permitido enxergar.
Entendemos que somos muito mais fortes do que diziam que éramos”, completa Vanessa.
Além disso, a vida em movimento trouxe uma mudança de valores. Menos acúmulo, mais presença. Menos excesso, mais consciência. Coisas simples passaram a ter outro peso. Um banho quente, o agora, o cuidado com o meio ambiente.
A jornada não é feita apenas por duas pessoas. Tali e Vanessa dividem a estrada com Benjamim, um cachorro idoso, e Maya, uma gatinha. Os dois já faziam parte da família antes mesmo da decisão de viver viajando.
Uma das nossas maiores preocupações era se eles iriam se adaptar. Fomos inserindo a rotina aos poucos, até que tudo se encaixou”, conta Vanessa.
Hoje, os dois são parte central da viagem. As decisões passam sempre pelo bem-estar deles. Às vezes, isso significa abrir mão de certos lugares ou desacelerar o ritmo.
É uma jornada que exige mais paciência, mas também é uma jornada de muito amor. Eles são nossos parceiros diários e parte da nossa família”, diz Tali.



Seguir também é vencer
A vida na estrada não é fácil e elas não escondem isso. Há dias difíceis, de cansaço e dúvida. Mas há algo que sustenta a escolha.
Tem dias que a gente não vence. Continuar também é progresso”, resume Vanessa.
O Livre Jornada não é um convite para abandonar tudo e pegar a estrada. É um lembrete poderoso de que mudar de rota não é fracasso. É maturidade. É escolha. É coragem.
Quando mulheres contam suas histórias com verdade, outras mulheres se sentem autorizadas a fazer o mesmo. A força feminina cresce assim, em rede, em escuta, em coragem compartilhada. E, às vezes, começa em um encontro simples, em um espaço de passagem, onde duas mulheres seguem viagem oferecendo mais do que brigadeiro. Oferecem inspiração.
Serviço
- YouTube: Livre Jornada
- Instagram: @livrejornadaa




