Cada vez mais pessoas recebem o diagnóstico de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) apenas na vida adulta. O movimento reflete uma mudança na forma como o transtorno é compreendido, avaliado e discutido, tanto na medicina quanto na sociedade.
Durante décadas, o TDAH foi associado quase exclusivamente à infância, marcado pela imagem da criança inquieta, com dificuldade de concentração. Hoje, especialistas reconhecem que o transtorno é de origem genética, está presente desde o nascimento e pode persistir ao longo da vida, ainda que com manifestações diferentes.
Números em alta, debate em curso
Estudos internacionais estimam que entre 2% e 3% dos adultos convivam com o TDAH. Na Alemanha, dados de planos de saúde públicos indicam índices mais baixos, variando entre 0,2% e 0,4%. Ainda assim, uma pesquisa recente publicada na revista Ärzteblatt International chamou atenção ao apontar que, entre 2015 e 2024, o número de novos diagnósticos em adultos quase triplicou, passando de 8,6 para 25,7 casos a cada 10 mil pessoas.
O fenômeno não se restringe à Alemanha. Nos Estados Unidos, por exemplo, o total de adultos diagnosticados mais que dobrou nas últimas duas décadas, segundo dados epidemiológicos.
Para a psiquiatra e terapeuta comportamental Swantje Matthies, do Hospital Universitário de Freiburg, o aumento está ligado, principalmente, ao reconhecimento tardio do transtorno. Muitos adultos, segundo ela, passaram a vida sem diagnóstico e só agora têm acesso a uma avaliação adequada.
Um transtorno além da infância
A ideia de que o TDAH desaparece com o crescimento já não se sustenta. Embora a hiperatividade intensa seja mais comum na infância, na fase adulta ela costuma se transformar em inquietação interna, ansiedade constante e dificuldade de organização. Os problemas de atenção, por sua vez, tendem a permanecer.
As diferenças de gênero também influenciam o diagnóstico. Enquanto meninos costumam apresentar comportamentos mais visíveis, como impulsividade e agitação, meninas frequentemente manifestam desatenção e comportamento introspectivo. Esses sinais, muitas vezes, são confundidos com depressão ou ansiedade, o que contribui para diagnósticos tardios.
Dados recentes mostram que mulheres jovens passaram a ser diagnosticadas com mais frequência, e que, ao longo da vida adulta, os índices entre homens e mulheres se tornam semelhantes.
Como é feito o diagnóstico em adultos
Identificar o TDAH na vida adulta exige um processo detalhado. A avaliação envolve entrevistas clínicas, questionários específicos e uma reconstrução da história de vida do paciente. Um critério essencial é a confirmação de que os sintomas já estavam presentes antes dos 12 anos e continuam interferindo na rotina atual.
Esse resgate do passado nem sempre é simples. Relatórios escolares, boletins antigos e relatos familiares costumam ajudar. Além disso, é fundamental descartar outras condições psicológicas que também afetam a atenção e a concentração.
Por que mais pessoas estão sendo diagnosticadas
Especialistas apontam vários fatores para o crescimento dos diagnósticos. Entre eles, maior acesso à informação, mudanças nos critérios de classificação dos transtornos mentais e um aumento na procura por apoio psicológico, especialmente após a pandemia de covid-19.
O contexto de isolamento, insegurança e sobrecarga emocional levou mais pessoas a buscar ajuda profissional, o que contribuiu para a identificação de transtornos antes não reconhecidos. Isso não significa, necessariamente, que o TDAH esteja se tornando mais comum, mas sim que está sendo melhor identificado.
Matthies ressalta que as explicações ainda são preliminares e que novos estudos serão necessários para entender a evolução desses números ao longo do tempo.
Redes sociais ampliam visibilidade, mas exigem cautela
As redes sociais tiveram papel importante na popularização do tema. Relatos pessoais ajudaram a reduzir o estigma e estimularam a busca por diagnóstico. Ao mesmo tempo, especialistas alertam para o risco da simplificação excessiva e da desinformação.
Segundo Matthies, compartilhar experiências pode ser positivo, mas conteúdos imprecisos podem gerar confusão e autodiagnósticos equivocados.
Diagnóstico como ponto de virada
Para muitas pessoas, receber o diagnóstico representa alívio. Ele ajuda a explicar dificuldades recorrentes, reformular estratégias de trabalho e buscar tratamentos adequados, como terapia comportamental e medicação.
Além dos desafios, muitas pessoas com TDAH relatam características positivas, como criatividade, entusiasmo e capacidade de hiperfoco, períodos de concentração intensa que podem favorecer a produtividade. O transtorno, no entanto, se manifesta em um espectro amplo, e nem todos conseguem transformar essas características em vantagem sem apoio adequado.




