Antes de iniciar a reflexão de hoje, acho por bem alinhar o que seria essa “subversão”. Aqui, quero tratar o comportamento subversivo como a necessidade natural de fugir aos padrões preestabelecidos, o que poderia gerar o pensamento criativo e a busca por inovação. Raul Seixas dizia que a desobediência é uma virtude necessária à criatividade. Premissa que realmente faz sentido, posto que, se não fosse essa capacidade de questionar a realidade, o mundo não teria evoluído em muitos aspectos. Ir em busca do desconhecido, de trilhar novos caminhos, de pensar diferentemente, de valorizar a divergência e o dissenso são qualidades inerentes àqueles que promovem mudanças em suas próprias vidas e na vida da coletividade.
Inquietude que move
Como exemplo dessa postura subversiva, podemos citar Galileu Galilei ao questionar o pensamento vigente de uma época a ponto de pagar com a vida por sua nova visão em relação ao cosmos e ao fazer científico. Sócrates, com sua maiêutica, incitando seus seguidores ao questionamento. Schopenhauer alertava sobre os prejuízos do excesso de leitura sem o devido ruminar das ideias. O próprio Jesus ao questionar os fariseus e seu olhar rígido sobre a religiosidade. E mais tantos e tantos que poderíamos citar aqui como prova de que a subversão é um valor social que movimenta o mundo e o homem. A liberdade do pensar para além do que está prescrito, essa inquietude que move as ideias e o espírito em direção ao novo são posturas típicas das mentes mais brilhantes e inventivas que a humanidade nos apresentou.
Manutenção da ordem estabelecida
Em contraponto a essa perspectiva, ao educarmos nossas crianças, propomos a perspectiva da manutenção da ordem estabelecida em que regras são regras e devem ser seguidas sem qualquer questionamento. Adolescentes são vistos apenas como meros rebeldes sem causa. Contrapor-se às expectativas é um dos pecados capitais. A desobediência é algo a ser coibido a qualquer custo mesmo que não nos perguntemos as razões para tais atitudes, o que impossibilita o contra-argumento e a aprendizagem. O erro então se torna parâmetro de classificação entre quem é melhor ou pior, quem merece ou não louros. E assim como em tantas outras áreas da vida, a condenação é certeira. Fico a me perguntar quantas mentes brilhantes deixaram de evoluir para se adequar socialmente. Talvez isso explique tanta frustração, ódio e desprezo por aqueles que escolhem viver diferentemente.
Precisamos educar para que valores universais como as garantias de direitos a todos e a todas sejam respeitados, mas também precisamos educar para a subversão, para desafiar o senso comum; para ressignificar a realidade; para enxergar novas perspectivas de convivência humana em que não se comemore a destruição do outro, mas que se busque a sua recuperação… Devemos educar para reimaginar e reconstruir a humanização perdida nos tempos sombrios que vivemos.




