As cenas dantescas registradas no Complexo do Alemão no dia 28 de outubro são a face mais crua de uma crise de segurança pública que há décadas consome o Rio de Janeiro. A mega operação, que resultou em um trágico saldo de mais de 120 mortos (até a redação deste texto), não representa um caso isolado de falha, mas a expressão máxima de uma estratégia repetida e fracassada. Já houve dezenas, talvez centenas de operações similares que não trouxeram solução para a crise. O Estado “invade” e depois “evade” o território. FAZEMOS AS MESMAS OPERAÇÕES QUE NÃO TIVERAM RESULTADO POSITIVO E QUEREMOS RESULTADOS DIFERENTES?
A análise de sucesso e profissionalismo na segurança pública não pode, jamais, ser pautada pelo número de mortos em uma ação policial. A operação, tida como a mais letal da história do estado, não resolveu nem mesmo aliviou o caos securitário em que a população está mergulhada.
Planejamento tático
O que se viu foi barbárie, falta de planejamento tático e uma inteligência que ignora o óbvio: coloca-se em risco a vida do policial, exposto de forma cega, e a do cidadão que reside no local. O resultado mais perverso é que, mesmo ao custo de vidas tão numerosas, a ação não desarticula definitivamente o comando territorial do crime.
Se o fizer especificamente sobre aquela nomenclatura, a dinâmica perversa se repete: outra organização criminosa assume o controle, e não o Estado.
A pergunta que se impõe é: existe solução?
A resposta é sim, mas ela é complexa e exige coragem para encarar as raízes do problema, planejamento estratégico e tempo. Não se trata de uma crise restrita ao Rio. Todo o Brasil assiste ao crescimento, à profissionalização e, o mais grave, à permeabilização das organizações criminosas nas estruturas do Estado. No Rio de Janeiro nem se fala. Há tempos, milícias e facções desenvolveram braços no interior do governo e das próprias instituições policiais do Rio. Este é um fato inconteste, evidenciado pela sofisticação do crime, que gasta milhões em armas e munição, como revelam investigações.
O caminho para a solução, portanto, não reside em repetir operações espetaculosas e fúnebres. Passa, necessariamente, pela busca de estratégias exitosas e pela retomada do espaço geográfico. No entanto, essa retomada não pode ser apenas policial. Ela precisa ser civilizatória.
Urbanização
A urbanização é passo primário e inadiável para a resolução do problema do crime no Rio de Janeiro. A presença do Estado deve se dar de forma permanente e benéfica, por meio de serviços essenciais: educação de qualidade, saúde acessível, saneamento básico e oportunidades de emprego. Enquanto o poder público chegar apenas pela ponta de um fuzil, o ciclo de violência e domínio criminoso seguirá se repetindo, gerando mais manchetes trágicas e enterrando qualquer esperança de paz para a população.
A sociedade não quer espetáculos de força; quer tranquilidade e dignidade. E isso só se constrói com política de Estado, não com política de balas.




